terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Por novas marés

On Stranger Tides leva-nos por estranhas marés, desconhecidas mas extraordinariamente belas.

Em primeiro lugar, é de referir a vasta pesquisa que o autor deverá ter feito, pois a história maravilha-nos com a oferta de mitos e lendas piratas que apenas ouvimos como histórias de horror ou de embalar. Navios fantasmas, magia negra e a Fonte da Juventude são apenas algumas das maravilhas com que Tim Powers nos faz deparar numa história que nos cativa a atenção tão depressa.

Efectivamente, espanta-nos a longevidade da imaginação do autor, por proporcionar a todas as personagens, principais ou secundárias, um papel igualmente importante na sua mente dando-lhes, assim, histórias individuais, narradas no presente, sem interrupções ou tempos mortos num enredo já por si complexo mas sempre bem gerado, graças à forma fluida com que varia entre o enredo principal e as narrativas episódicas.

Da mesma forma, esta fórmula de escrita e a pesquisa feita permite intercalar o romance histórico com o mundo fantástico proveniente da visão do autor, sem que se note essa alternância, fazendo-nos acreditar em todos os acontecimentos que nos são narrados e em cada personagem, sejam reais ou fictícias. E aqui devo destacar a forma como Tim Powers lida com a famosa morte do Barba Negra, fazendo-nos olhar para cada linha que se segue e ler cada palavra escrita, mostrando-nos bem os horrores de tal acontecimento que muitos desconhecem como uma das mais horríveis execuções de sempre.

Também é de salientar o estilo de escrita de Tim Powers, a qual se revela elegantíssima e arrojada, com belas descrições, mesmo nos momentos mais violentos («(…) o som metálico de um segundo prolongado vibrando em tensão.»), tornando cenas, que provavelmente vistas pelos nossos olhos seriam banais, em autênticas cenas de terror, com uma descrição exagerada e uma alternância entre sonantes adjectivos e advérbios e um vocabulário brusco que enfatiza cada movimento e consequência, em detrimento de um vocabulário mais usual, como a presente citação ilustra bem:

«As duas explosões foram simultâneas, mas, enquanto o tiro do capitão não atingiu Davies, indo cravar um buraco no braço do oficial que se encontrava à sua direita, o tiro de Shandy furou a garganta do capitão e atirou o esguichante corpo, em ressaltos, da ponta da antepara até ao convés, onde tombou estrondosamente.»

A fantasia revela-se um género ainda com muito para oferecer, mesmo que os temas se revelem aparentemente sem grandes motivos para tal exploração literária. Este livro é, assim, uma agradável surpresa e, porque não usar uma expressão clássica, uma maravilhosa viagem.

Vodu nas Caraíbas (Tim Powers)
Saída de Emergência
1ª edição – Maio de 2007
317 páginas