domingo, 24 de julho de 2011

Mais


Olhos azuis
Cabelo quase loiro
Uma pele que raramente tocada se revela suave
Padrões óbvios de apreciação
Mas aqui numa naturalidade que poucas mulheres expressam
Pela maioria se esconder atrás de eventuais belezas
Uma naturalidade quase semelhante a fantasia
Sem pintura, pente ou qualquer creme hidratante
Mas ela existe
E persiste
Numa imaginação baseada nas pequenas vezes que a encontro
Em que a olho fascinado
Por ninguém a olhar assim
E por ela não o mostrando querer ser olhada assim
Então a olho
Sem antever nada
Nesse fascínio que persiste mais do que imaginário
Que agrada mais que ficção
Uma pele que raramente tocada se revela suave
Cabelo quase loiro
Olhos azuis

terça-feira, 12 de julho de 2011

Marés distintas

Sempre desconfiei a partir do momento em que ouvi que fariam um quarto filme do Pirates of the Caribbean intitulado On Stranger Tides. E essas desconfianças provaram-se fundamentadas.

Foi, de facto, com expectativas baixas que me encontrava aquando da minha visualização deste filme, já que sabia que não poderia resultar a adaptação do livro com o mesmo nome (cuja crítica por mim escrita poderá ser vista aqui) ao universo criado nos três filmes anteriores, já que cada universo se apresenta independente e muito diferente.
O universo da obra de Tim Powers, apresentando uma tamanha riqueza dramática, é quase contrário ao universo criado por Gore Verbinski, num espírito mais descontraído, até na criação de uma personagem como a de Jack Sparrow, apesar de o livro inspirar The Curse of the Black Pearl. Faço esta última afirmação sem certezas, mas com muita convicção, já que olhando para o filme e tendo lido o livro é impossível não fazer comparações entre ambos.
O romance entre Jack Shandy e Beth, equiparado ao de Will Turner e Elizabeth. Os mortos-vivos de Powers e a maldição do ouro azteca de Verbinski. O real Barba Negra e o imaginário Barbossa. A remota e desconhecida Fonte da Juventude e a inacessível e lendária ilha do tesouro azteca. Todos estes elementos trabalhados com nomes diferentes e contextos diferentes mas com a mesma paixão que parecem partilhar.

E é esta paixão a principal questão que se põe neste quarto filme desta "saga". Não existe paixão, apenas vontade de ganhar mais dinheiro com o filme, como mostra a insensatez acrescentada pelo uso do 3D desnecessário à vivência do filme. Mas não é apenas isto que demonstra falta de paixão. O filme, com uma maior vontade de regresso às origens, assemelha-se mais a National Treasure (também produzido por Jerry Bruckheimer) do que ao primeiro filme dos Piratas, construindo-se a história através de uma série de eventos que fazem as personagens chegar cada vez mais perto do seu objectivo ao invés dessa mesma história ser construída pelas próprias personagens.

Foi isto que Verbinski fez em todos os três filmes que realizou, com pequenas e variadíssimas subtilezas e nos seus numerosos enredos paralelos, tal e qual Powers faz na sua extensa narrativa e, nesse sentido, Gore Verbinski respeitou mais o legado que Tim Powers deixou no seu livro do que alguma vez este quarto filme poderia conseguir.
Porque com o final do terceiro filme, Verbinski disse que faria um quarto se houvesse uma história que o justificasse, sabendo ele que essa história só seria conseguida se pensada de origem e não copiada da ideia de outrém, já que isso originaria um resultado como o que nos é apresentado no filme de On Stranger Tides, que apenas pega em ideias gerais do livro, como as sereias, os mortos-vivos a até mesmo a personagem do Barba Negra (que, desrespeitosamente, ganha tanto protagonismo quanto o do menor dos piratas que embarca no seu navio) e lhes tira a razão de ser e a importância na narrativa maior.
E é compreensível, já que esses elementos, como disse anteriormente, já tinham sido abordados sobre outros nomes. Mesmo elementos novos são desperdiçados, sendo a ideia da presença das sereias rebaixada ao nível do Kraken no segundo filme, como apenas mais um monstro, ou, redundantemente, ao nível da personagem de Elisabeth Swan, transformando uma sereia numa criatura capaz de amar um religioso (que apenas serve uma história secundária, como no livro, mas que se sobrepõe, desinteressantemente, a tudo o resto).

E mesmo as personagens criadas de raíz para os filmes são desaproveitadas. Apesar do possível interesse no facto de Barbossa se transformar num corsário com a perda de uma perna, o facto da razão de ser dessa escolha ser tão simples como a de vingança faz com que a ideia perca qualquer estímulo que pudesse dar à história e o próprio Jack Sparrow (apesar da contínuo interesse que continua a mostrar, neste filme até numa dupla com a personagem de Penélope Cruz) cai num forçado uso de piadas, ainda que bem escritas, sem contexto.

Apesar da ideia de adaptar o livro de Tim Powers, com toda a sua riqueza de personagens, enredos e dramatismo, ser estranha para um filme com a presença de Jack Sparrow, todo o potencial que poderia ter nessa adaptação perde-se numa vontade maior de continuar o sucesso monetário mais do que o sucesso cinemático e narrativo dos filmes anteriores e do próprio livro.