Uma noite quente sem luz, um cigarro iluminando momentaneamente a sua face, um decote óbvio, a curta medida do vestido, o misticismo do seu sensual vestido vermelho repousando calmamente numa cadeira, um copo de vinho meio cheio na frente.
Desta forma ele a via e contemplava, por entre uma vontade de a abordar e o desejo de a acompanhar. Mas ele mantinha-se distante, julgando saber aquilo que ela quereria, julgando remota qualquer hipótese de se juntar a ela, beberricando o seu próprio copo de vinho tinto e vendo outros aproximarem-se dela e gozarem os seus poucos segundos de sucesso, por detrás de conversas fartas mais que divertidas.
Ele não partilhava de igual entusiasmo, mesmo estando a apenas alguns centímetros dela e da sua constante companhia. Talvez por sentir algum enfadonho em tão óbvias conversas. Talvez pelo calor que fortemente se fazia sentir no topo da sua cara em pequenas gotas. Talvez por ter alguma inveja aliado a uma pitada de ciúme. Afastava-se desses pensamentos, tentando fazer parte da informal ocasião, sem saber bem o que dizer, mais para estar junto da rapariga que abertamente sorria.
Ela convidou-o a sentar-se mais perto dela. Tenha sido a noite à luz dos candeeiros de rua que espreitava por entre a janela atrás deles, o som do saxofone, do violoncelo, do piano do jazz que tocava em fundo ou apenas a ajuda da bebida que se alongava jantar dentro, ele sentiu uma certa química, se tal nome se podia dar àquele momento em que ele concordou em se juntar a ela e em que ambos se olharam mutuamente...