sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Uma ode à vida

O título deste romance é enganador. Ainda que se pense que é a história de uma só personagem, a verdade é que acompanhamos desde o início a história de três casais. E mesmo assim, um livro com setecentas páginas nunca justificou tanto a sua extensão, visto que para além desses três casais a obra fala de uma sociedade e época inteiras.

O que faz com que este romance seja um clássico intemporal é a forma como o autor define uma ficção que se sente tão real como a realidade na qual essa ficção se insere. Não é apenas a forma como magistralmente acompanha intercaladamente as histórias destes casais, seja num relativamente fácil processo de redenção do casamento entre Oblonsky e Daria, no conturbado desenvolvimento da relação entre Levine e Kitty antes e após o seu casamento ou no intenso início e fatal final da relação entre Ana e Vronsky.
Nem é na forma como aborda os vários temas inerentes àquela sociedade russa, desde a economia e política, passando pela arte ou mesmo por actividades mais concretas como a agricultura ou de temas como o amor, através de elaboradas mas acessíveis conversas entre as várias personagens conforme o tema ou contexto.

O que realmente define o romance é a forma como o autor combina estes aspectos. Apesar das conversas sobre certos temas serem longas, nunca sentimos que o romance se divide entre a história das personagens e o que o autor prentede demonstrar sobre a sociedade, enaltecendo um com o outro, já que as personagens estão contextualizadas nos temas conforme faça sentido. Por isso mesmo nem estranhamos quando percebemos que Ana Karenine possui conhecimentos até no que toca à arquitectura, porque em tudo o que faz a sua personagem mostra tal versatilidade e extensão de cultura e sabedoria.

E desde o início o autor deixa bem claro o que pretende oferecer com o seu romance. Até a maneira como os três romances se desenvolvem e envolvem questões sobre o casamento, por arrasto o divórcio e, por consequência, o amor, de diferentes pontos de vista e através dos diferentes e por vezes até contraditórios sentimentos das diferentes personagens, faz-nos compreender melhor esta época e sociedade mas, mais que isso, já que os temas são universais, faz-nos considerar nós próprios esses temas e reflectir sobre eles no nosso presente e sociedade. 

É essa a grande conquista deste romance, o facto de, quer os temas tratados quer as relações não lineares e conturbadamente realistas das personagens serem-nos tão contemporâneas como o eram na época em que foi a obra escrita. É um romance, uma reflexão sobre uma sociedade, mas muito mais que isto, um vasto e conhecedor olhar sobre a condição humana e nós próprios. Tomando as palavras de Italo Calvino, «Um clássico é um livro que nunca acaba de dizer o que tem para dizer».

Ana Karenine (Leo Tolstoy)
Círculo de Leitores
sem indicação de edição
735 páginas