sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Véu caído

Ali estava

Olhando para o que passei, não sei mais o que senti.
Pois, se assumi a posição sobre quem julgava amar, o peso de tantos anos deixou de pousar sobre os meus ombros, sobre o meu coração, sobre o meu pensamento. Peso esse advindo de uma inexistente verdade, inalcançável destino que julgava ser o meu. Peso esse que nunca deveria ser presente face a quem se ama.

E tendo arrancado este manto que me toldava e entorpecia, fazendo-me avançar medrosamente por entre vontades que não eram minhas, a claridade de um antigo universo, entretanto renovado, assaltou-me inesperadamente.
Não mais sinto culpa, não mais sinto expectativa, não mais sinto ter que corresponder a quem sentisse ter que o fazer.
E ao recuperar a confiança que nunca tive, reconheci-a sempre expressada numa única pessoa.

Uma pessoa que, escondida pelo manto do que eu pensava serem os meus sentidos desejos, entendi agora ser a que realmente amei todos estes anos.
Não vivamente como a que todos estes anos ocupou o meu pensamento, a quem tentei corresponder sem razão. Antes ocupando o fundo da minha felicidade, a quem sempre fui emocionalmente honesto, a quem nunca tive que provar nada para além do que possuo. E face o pior de mim, nunca se deteve.
E sempre persistiu, assim até hoje, no meu pensamento, no meu coração. Os seus receios, os meus próprios. As suas dores, os meus pesadelos. O seu riso, a minha felicidade.

Não deixo, pois, de recear que seja tudo isso apenas expressão contrária à anterior, forma de depositar um sentimento em detrimento de um outro, melhorado. Mas não me sinto escondido por trás de quem me possa amar, antes de peito aberto, amando-me a mim próprio, disposto a deixar-me ser amado.
Não mais sinto culpa, não mais sinto expectativa, não mais sinto ter que corresponder a quem sentisse ter que o fazer.
E ao recuperar a confiança que nunca tivera, reconheci-a antes expressada numa única pessoa.

Uma única pessoa a quem nunca deixarei de amar.
Porque eu mereço ser o melhor que posso ser,
Mas porque tu também mereces o melhor de mim,

Aqui estou

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Resignação

Assola-me o medo da irrelevância,
Que cada gesto seja insuficiente,
Cada palavra inconsequente
Sinto os meus feitos lesados,
Se deles ela não retira legado,
Uma permanente lembrança

Só queria que fosse eu
Se de alguém ela se lembrasse,
Em alguém se suportasse
Como quando eu dela me recordo,
Aos seus padrões me disponho,
Ainda que presente ela não esteja

Absurda causa de tristeza,
A procura de sentido permanente
A quem preparado a dar-me eu esteja,
Mas não de mim a receber ela disposta
O que possua por herança
Fique de tudo pouco mais que nada,
A um sentimento este percurso reservado,
O desconforto da esperança