Haja dias em que não nos apetece ler algo que nos ocupe tempo, cabeça, esforço, haja dias em que realmente um policial ou uma anedota nos contente, haja dias em que o individualismo se dissipe. Mas realmente, que não sejam todos os dias.
Vergílio Ferreira diz que o mistério da individualidade de um livro é melhor que qualquer coisa. Não haja dúvidas quanto a isto. A exposição dos livros não nos permite mais termos a nossa própria avaliação destes, racional ou emocional, sendo que mesmo outras opiniões podem influenciar a nossa própria. Há alguma vez que, vendo um qualquer livro ou filme exposto ou anunciado numa qualquer rua, estando acompanhados, não perguntemos ao nosso acompanhante qual a sua opinião sobre tal assunto, antes que possamos ter a nossa visão pessoal, antes de podermos ter sequer tempo de comparar o nosso ponto de vista?
Não só os filmes, mas também o mistério do livro se perde com o aparecimento da imprensa, pois ao divulgar considerações e segredos, revelam-no inevitavelmente, muitas vezes tirando-nos o apetite de o avaliarmos nós próprios, de o termos na mão por um segundo que seja.
E, tal como esta leitura individualizada que se perde, também a magia da leitura exteriorizada se parece perder aos poucos para Vergílio Ferreira. De facto, cada vez menos as pessoas “desperdiçam” o seu tempo numa catedral ou cinema, pelo estranho prazer que parecem encontrar na animalidade das grandes multidões encontradas em estádios, supermercados ou centros comerciais.
Mas será esta perda da comunidade num cinema, como ele próprio diz, que faz perder a magia deste? Acredito que, mais que o prazer de estar em comunidade, em primeiro lugar deve estar o prazer de apreciar o filme, sejam as galerias e cadeiras monótonas ou as pessoas escassas, porque, mais do que com quem se vê é onde se vê, e realmente é perdida a magia do cinema quando se vê um simples vídeo num simples sofá, onde se pode interromper a qualquer segundo esse deleite.
Poder-se-á dizer também que se perde o sagrado de uma oração quando esta é feita em privado? A nossa fé, a nossa cristandade (e entenda-se “nossa” pela do catolicismo) é, de facto baseada na vida em comunidade, e a eucaristia é um bom exemplo desse aspecto, pois é o espaço, quer de lugar, quer de tempo, onde partilhamos a nossa fé. Mas seria essa fé conjunta possível, se não houvesse uma fé individualizada? Teria valor uma oração lida em conjunto, se não tiver valor lida individualmente?
Pensar o livro. Mais do que um desejo, uma obrigação. Partilhar o livro. Mais do que uma obrigação, um desejo.
Agora poderei avaliar a minha avaliação da avaliação de Vergílio.Tinha liberdade para este trabalho, no sentido único que era a minha interpretação. Penso que pensei cada coisa a fundo, pelo menos ao fundo do meu ver. A visão é totalmente pessoal, pois se o não fosse, seria contraditório ao meu texto. Não demorei muito tempo para o analisar, o texto proporcionado, nem escrever, o texto acima, tendo demorado cerca de uma hora, para ambos. Claro está, necessitei de ler o texto algumas vezes, fosse para uma leitura mais interpretativa, fosse para tirar notas. No entanto, a análise está melhor, penso eu, em termos de compreensão de textos, aqui já me referindo igualmente ao teste para avaliação realizado na passada quarta-feira. Em termos de estrutura, penso que continua bom como o habitual. Avaliá-lo-ia em 16 valores, isto porque me parecem ainda ter escapado possíveis pormenores na interpretação, que me foram "revelados" pelo meu irmão.

1 comentário:
A tua reflexão, à parte algumas expressões menos elegantes, ainda que correctas ("Não nos permite mais termos a nossa própria avaliação destes", por exemplo) Está bastante bem escrita, bem estruturada, sobretudo bem pensada.
No que respeita à apropriação textual, cada um fá-la ao seu nível, que não é necessariamente hierárquico, mas relacionado principalmente com a sua subjectividade, mundividência, experiência pessoal, única.
Era isso que se pretendia, era sobre isso o texto que te dei a ler (não inocentemente)!
Gostei muito das frases de remate - revelam profundidade na apropriação de um texto, de um estilo - apanhaste a escrita de V. Ferreira - e um grande sentido estético.
O teu trabalho está MUITO BOM (17).
Quanto à avaliação da tua auto-avaliação, pormenorizada e justa, revela-se impertinente no pormenor final, que te fez desvalorizar o trabalho não pelo motivo mais correcto, os aspectos que não viste, e não a necessidade de "limar" a expressão escrita.
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