"O Epic não é, repito, não é um jogo".
Esta frase é-nos apresentada a meio do livro, mas é perceptível logo a partir do início deste.
Uma sociedade utópica, onde a única violência está presente num mundo virtualmente criado com o aparente intuito de diversão. As aparências iludem numa narrativa que segue a inconsciente e quase heróica jornada de um jovem rapaz pela liberdade da sua família e pela consequente libertação de uma sociedade.
Logo desde o princípio será interessante reparar como o autor, ao longo de toda a trama, vai alternando entre o nome real de cada personagem e o da ficção assumida no dito jogo, o que demonstra desde o princípio muito bem a forma como uma realidade influencia a outra e como ambas são dependentes nesta New Earth.
Desde o início, parece que este jovem começa a quebrar as regras do importante passatempo. E apesar desse interesse se dissipar aos poucos pela descoberta contínua das novas regras do jogo, uma faceta contrária vai-se desenrolando ao longo desta história, a faceta de um grupo, uma autoridade, que aparenta controlar o que parece ser a base deste novo mundo, à medida que tentam lutar contra uma ameaça imergente através das páginas de um jornal.
E à medida que tentam combater a imparável máquina da informação como forma de uma aparente revolução, começamos a compreender que o Epic serve um propósito muito mais obscuro do que aquele que os jogadores imaginam como sendo justo.
Os debates que se vão formando nesta situações serão o ponto de maior interesse de toda a leitura.
A par disto, outros aspectos vão sendo retratados em diferentes circunstâncias pontualmente, lançando no ar questões curiosas, mas deixando apenas a possibilidade de pensar sobre tais pontos.
A dominância do instinto animal sobre um sistema racionalmente concebido.
A evolução de uma artificialidade virtual através do impacto da vontade humana sobre esta.
A indistinção e consequente quebra das diferentes regras de diferentes realidades.
Aspectos muito interessantes de uma possível exploração.
Considerando o claro público mais jovem ao qual se dirige, terá sido melhor manter tais aspectos apenas rumorosos e não se debater sobre eles, de forma que o possível leitor mais jovem não se canse de ler.
Pelo final do livro, é engraçado ver como (sem querer revelar nada nem estragar qualquer posterior vontade de leitura do livro) o autor vai alternando os pontos de vistas de uma batalha entre os supostos heróis e os óbvios vilões, mantendo uma certa surpresa nos variados momentos. Pena que as batalhas se assemelhem um pouco a qualquer batalha em Nárnia ou na Terra Média.
Uma excelente ideia base que, devido ao rótulo que possui (romance jovem) não explora todo o potencial que lhe estaria inerente, não deixando assim de surpreender com certas personagens e intrigas secundárias.
Epic (Connor Kostick)
Edições Asa
1ª Edição - Abril de 2006
352 páginas

