sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Sempre

Ela encontrava-se na minha frente
Conversávamos como amigos que somos
E num repente inesperado, ela espreguiça-se
Revelando um pouco do seu corpo tão resguardado anteriormente
Mas agora visível por uns segundos
Um ventre tão simples e sensual
Uma sensualidade que desconhecia nela
E assim admirava algo escondido por trás de olhares esguios
Tentando não mostrar a minha sensação de surpresa
Continuávamos a conversar
E por momentos por detrás da nossa amizade esqueci a minha nova descoberta
E novamente ela se espreguiça
Relembrando-me a minha maravilha perante ela
Maravilha que se sobrepunha a qualquer desejo que pudesse ter
Por ser um detalhe no meio de outros que me maravilhavam de igual maneira
Admirei o seu corpo uma última vez
Olhei-a largamente nos olhos e continuei a nossa conversa

domingo, 4 de setembro de 2011

Como ninguém

Uma mera empregada de mesa. Era o que ela era.
Vi-a passar pela nossa mesa, com um olhar acostumado, sem esperar nada, num jeito tão comum quanto as pessoas entorpecidas sobre as mesas que ela servia. De um lado ao outro do restaurante ela passava, atendendo chamamentos silenciosos de pessoas esfomeadas por atenção. E ela sem esperar nada.
Eu notei a sua presença. A sua pele tensionada sob uma camisola justa de tecido branco, o seu corpo torneado evidenciado por um andar despreocupado. Era difícil não a notar. Não julgava no entanto as pessoas que esperavam apenas a refeição, sem ligar à presença que a acompanhava. Ou talvez julgasse.
Admirava-a distanciadamente. E assim me mantive, ao ela chegar à nossa mesa, desviando a atenção para o livro de receitas prontas na minha frente, como qualquer um dos outros clientes que não a reconheciam. Demorei alguns segundos mais que o esperado para fazer o pedido, já da sobremesa, por pensar que uma escolha bem feita daria azo a mais que um sinal afirmativo da parte dela. Fiz o pedido. E não foi ao ela dizer "Boa escolha" que me deparei com a mesma secreta admiração da parte dela, mas ao ela repetir as mesmas palavras num tom quase inaudível.
*
Esperei até o restaurante fechar. Era noite cerrada, não diferente de qualquer outra, tirando uma óbvia sensação de agradabilidade momentânea pela espera demasiado prolongada.
Nunca a cheguei a ver, nem fiquei a saber se o erro tinha sido meu de julgar que algo podia advir de um situação tão comum.