domingo, 4 de setembro de 2011

Como ninguém

Uma mera empregada de mesa. Era o que ela era.
Vi-a passar pela nossa mesa, com um olhar acostumado, sem esperar nada, num jeito tão comum quanto as pessoas entorpecidas sobre as mesas que ela servia. De um lado ao outro do restaurante ela passava, atendendo chamamentos silenciosos de pessoas esfomeadas por atenção. E ela sem esperar nada.
Eu notei a sua presença. A sua pele tensionada sob uma camisola justa de tecido branco, o seu corpo torneado evidenciado por um andar despreocupado. Era difícil não a notar. Não julgava no entanto as pessoas que esperavam apenas a refeição, sem ligar à presença que a acompanhava. Ou talvez julgasse.
Admirava-a distanciadamente. E assim me mantive, ao ela chegar à nossa mesa, desviando a atenção para o livro de receitas prontas na minha frente, como qualquer um dos outros clientes que não a reconheciam. Demorei alguns segundos mais que o esperado para fazer o pedido, já da sobremesa, por pensar que uma escolha bem feita daria azo a mais que um sinal afirmativo da parte dela. Fiz o pedido. E não foi ao ela dizer "Boa escolha" que me deparei com a mesma secreta admiração da parte dela, mas ao ela repetir as mesmas palavras num tom quase inaudível.
*
Esperei até o restaurante fechar. Era noite cerrada, não diferente de qualquer outra, tirando uma óbvia sensação de agradabilidade momentânea pela espera demasiado prolongada.
Nunca a cheguei a ver, nem fiquei a saber se o erro tinha sido meu de julgar que algo podia advir de um situação tão comum.

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