sábado, 31 de agosto de 2013

O melhor da adaptação cinematográfica de uma qualquer obra escrita é a possibilidade de ter uma banda sonora que acompanhe a leitura do original.

Inútil

  Ele tenta escapar dela, desse terrível pesadelo tortuoso que é a esperança em algo da qual conhecemos, ou julgamos conhecer na nossa ignorância permanente, a impossibilidade da sua existência. Tenta escapar a cada dia, por saber que manter-se nessa implacavelmente permanente ideia poderá trazer desgraça na futura negação da mesma.
    E a cada dia lhe é negada essa segunda vontade, de que a primeira desapareça, ao se relembrar, em quase qualquer conversa que tenha com qualquer pessoa que conheça, algo que ela lhe tenha dito. Ela, aquela à qual essa esperança se refere. Aquela rapariga. Única, não por qualquer razão ilógica ou meramente emocional, mas por lhe proporcionar desde um certo momento algo que nunca outra lhe proporcionou. Essas lembranças permanentes, que só lhe reparam a importância que ela tem no seu carácter enquanto ser.
        E chegada cada noite, ele cede ao sono na possibilidade de a ter em sonhos que não controle, imaginado a possibilidade de uma vida com a sua presença nos moldes que deseja. Na sua constante companhia, ele segue noite dentro, sentindo a felicidade momentânea que chegada a manhã ele inevitavelmente perderá.
    E por cada noite e manhã que passa, ele perde a quotidiana noção de quem ela é, por imaginar constantemente uma realidade inexistente. Por cada noite passada, ele ganha um imaginário que lhe é querido. Por cada manhã chegada, ele perde, sem se aperceber, cada vez mais noção da sua própria realidade.
  Ele cada vez prefere mais sonhar, afastando-se desse receio que repentinamente o arrebata numa tola insegurança da sua parte, um receio de conseguir o que pretende ser para ela, preferindo ter, ainda que apenas efémera e levianamente, aquela rapariga no seu abraço, no seu calor, com todo o seu amor. Tenta sonhar a cada dia, por saber que manter-se nessa implacavelmente fátua ideia poderá trazer satisfação na presente aceitação da mesma.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

De uma vez só

- Descreve-a, disse-me
Respondi,
- Que queres que diga? Como queres que descreva por palavras o nervosismo que estupidamente se apoderou de mim no meu conhecimento de que ela iria estar na mesma mesa que eu? Como queres que descreva a forma abrupta como esse nervosismo acabou, assim como qualquer fútil pensamento que tivesse até àquele momento, em que ela se aproximava calma e despreocupadamente atrasada da iluminada entrada do restaurante, carregando a sua equilibrada silhueta naquele vestido a meios cinza e negro cujos bordados lhe acariciavam o peito e lhe realçavam os pequenos ombros? Como posso descrever a revelação final do negrume daqueles caracóis compridos que de relance nos indicava o olhar dela denunciador da sua imensa alegria naquela sua triunfante chegada?
...
- De forma sincera e do fundo do coração, disse-me de olhos arregalados

Inevitável

O simples perfil
A tímida estatura
A subtil ondulação de uns cabelos
que se perdem em negrume

Sinto que já vi tanta beleza
mas existe sempre algo mais capaz de me surpreender

Aquele sorriso, largo
Aquela postura, despreocupada
Aquela segurança, transmitida
em cada expressão de si

Sinto que a cada momento que passa
não serei capaz de a deixar escapar do meu olhar

Um macio encontro entre aqueles finos fios e os meus dedos
Um beijo sobre a sua cabeça faz-me perder
na lembraça das memórias que ainda virão
e das que continuo a guardar num batimento constantemente crescente

Quero ficar do seu lado e sonhá-la do meu
mas nunca a terei senão nestes pensamentos
Porque tudo o que tenho dela ela não tem de mim
porque tudo o que ela me é eu para ela não sou