Ele tenta escapar dela, desse terrível pesadelo tortuoso que é a esperança em algo da qual conhecemos, ou julgamos conhecer na nossa ignorância permanente, a impossibilidade da sua existência. Tenta escapar a cada dia, por saber que manter-se nessa implacavelmente permanente ideia poderá trazer desgraça na futura negação da mesma.
E a cada dia lhe é negada essa segunda vontade, de que a primeira desapareça, ao se relembrar, em quase qualquer conversa que tenha com qualquer pessoa que conheça, algo que ela lhe tenha dito. Ela, aquela à qual essa esperança se refere. Aquela rapariga. Única, não por qualquer razão ilógica ou meramente emocional, mas por lhe proporcionar desde um certo momento algo que nunca outra lhe proporcionou. Essas lembranças permanentes, que só lhe reparam a importância que ela tem no seu carácter enquanto ser.
E chegada cada noite, ele cede ao sono na possibilidade de a ter em sonhos que não controle, imaginado a possibilidade de uma vida com a sua presença nos moldes que deseja. Na sua constante companhia, ele segue noite dentro, sentindo a felicidade momentânea que chegada a manhã ele inevitavelmente perderá.
E por cada noite e manhã que passa, ele perde a quotidiana noção de quem ela é, por imaginar constantemente uma realidade inexistente. Por cada noite passada, ele ganha um imaginário que lhe é querido. Por cada manhã chegada, ele perde, sem se aperceber, cada vez mais noção da sua própria realidade.
Ele cada vez prefere mais sonhar, afastando-se desse receio que repentinamente o arrebata numa tola insegurança da sua parte, um receio de conseguir o que pretende ser para ela, preferindo ter, ainda que apenas efémera e levianamente, aquela rapariga no seu abraço, no seu calor, com todo o seu amor. Tenta sonhar a cada dia, por saber que manter-se nessa implacavelmente fátua ideia poderá trazer satisfação na presente aceitação da mesma.

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