quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Quanto mais evolui um país na tecnologia, mais regride na inteligência.
Devo recordar o que tinha, para desbravar o que posso vir a ter, pois recordando o que não tive, restar-me-á pensar que nada mais poderei ter.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

É preferível cada dia imaginarmos que as pessoas se lembram de nós do que chegarmos a um dia e sabermos que talvez quase nenhuma nos tem na sua memória.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Uma nova universalidade

"O Epic não é, repito, não é um jogo".
Esta frase é-nos apresentada a meio do livro, mas é perceptível logo a partir do início deste.

Uma sociedade utópica, onde a única violência está presente num mundo virtualmente criado com o aparente intuito de diversão. As aparências iludem numa narrativa que segue a inconsciente e quase heróica jornada de um jovem rapaz pela liberdade da sua família e pela consequente libertação de uma sociedade.

Logo desde o princípio será interessante reparar como o autor, ao longo de toda a trama, vai alternando entre o nome real de cada personagem e o da ficção assumida no dito jogo, o que demonstra desde o princípio muito bem a forma como uma realidade influencia a outra e como ambas são dependentes nesta New Earth.

Desde o início, parece que este jovem começa a quebrar as regras do importante passatempo. E apesar desse interesse se dissipar aos poucos pela descoberta contínua das novas regras do jogo, uma faceta contrária vai-se desenrolando ao longo desta história, a faceta de um grupo, uma autoridade, que aparenta controlar o que parece ser a base deste novo mundo, à medida que tentam lutar contra uma ameaça imergente através das páginas de um jornal.
E à medida que tentam combater a imparável máquina da informação como forma de uma aparente revolução, começamos a compreender que o Epic serve um propósito muito mais obscuro do que aquele que os jogadores imaginam como sendo justo.
Os debates que se vão formando nesta situações serão o ponto de maior interesse de toda a leitura.

A par disto, outros aspectos vão sendo retratados em diferentes circunstâncias pontualmente, lançando no ar questões curiosas, mas deixando apenas a possibilidade de pensar sobre tais pontos.
A dominância do instinto animal sobre um sistema racionalmente concebido.
A evolução de uma artificialidade virtual através do impacto da vontade humana sobre esta.
A indistinção e consequente quebra das diferentes regras de diferentes realidades.
Aspectos muito interessantes de uma possível exploração.
Considerando o claro público mais jovem ao qual se dirige, terá sido melhor manter tais aspectos apenas rumorosos e não se debater sobre eles, de forma que o possível leitor mais jovem não se canse de ler.

Pelo final do livro, é engraçado ver como (sem querer revelar nada nem estragar qualquer posterior vontade de leitura do livro) o autor vai alternando os pontos de vistas de uma batalha entre os supostos heróis e os óbvios vilões, mantendo uma certa surpresa nos variados momentos. Pena que as batalhas se assemelhem um pouco a qualquer batalha em Nárnia ou na Terra Média.

Uma excelente ideia base que, devido ao rótulo que possui (romance jovem) não explora todo o potencial que lhe estaria inerente, não deixando assim de surpreender com certas personagens e intrigas secundárias.


Epic (Connor Kostick)
Edições Asa
1ª Edição - Abril de 2006
352 páginas

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Distinta criação

John Moreton Drax Plunkett, mais conhecido por Lord Dunsany, autor deste livro de contos, parece ser a inspiração para grandes autores da fantasia dos últimos tempos e um dos fundadores da ficção especulativa. E isso nota-se em cada linha que escreve.

Se anteriormente elogiei Tim Powers pela sua imaginação literária, então neste caso não me resta senão idolatrar a distinção com que Lord Dunsany escreve a cada duas páginas. A cada duas páginas, um conto diferente, um mundo inteiro para conhecer. E estes mundos para conhecer poderiam ser um simples cliché, mas a cada novo conto, de facto toda uma nova história é desvendada, com personagens inteiramente distintas mas sempre surpreendentes. E apesar de haver ligações entre as vária histórias, seja a apresentação de uma personagem já conhecida ou a própria lembrança do narrador de uma história passada, sentimos uma enorme satisfação por podermos sentir sempre a cada novo relato uma emoção diferente da anterior, de personagens que tentam sempre quebrar a barreira das suas vidas para desvendar a existência do irreal. The Book of Wonder é o título perfeito para esta compilação de contos de literatura fantástica.

Em cada conto, a forma como nos narra os acontecimentos, como se já de antemão conhececemos as circunstâncias de cada história, nunca nos deixa no desconhecimento de uma imaginação tão própria, de uma criação tão individual, de um universo tão vasto que poderia perder tantas das suas subtilezas se não fosse exteriorizado e sentimo-nos imediatamente embrenhados nesse enorme universo fantástico que é a Orla do Mundo, desejando sempre beber mais do inspirador cálice deste autor. E o facto de serem curtos contos não nos dá quaisquer razões para nos cansarmos da sua leitura.

Uma excelente leitura, tenhamos nós uma tarde inteira pela frente ou uns meros dez minutos de intervalo. Quando começamos, queremos sempre ver o que nos vai surgir pela frente de seguida e desejaremos pertencer a um mundo de fantasia que nos vai parecer mais real e profundo que a realidade a que pretendemos fugir com esta leitura.

O Livro do Deslumbramento (Lord Dunsany)
Saída de Emergência
1ª edição – Agosto de 2007
192 páginas

domingo, 1 de agosto de 2010

Perdição

Encontro-me algo velho.
Não em idade, nem em físico.
Encontro-me num estado em que são tantas as provocações à minha paciência quotidiana que não aguento toda a frustração que guardo de forma quase religiosa sem a libertar.
Aguento-a por não saber que fazer com ela.
Pois se a libertar, tenho medo de mudar o melhor de mim.
Mas se a mantiver, tenho medo de libertar o que de pior poderei ter,
uma faceta não reconhecível ou mesmo frustrante ela própria.
E assim guardo-a, na esperança quase inútil de uma alteração.
Aguento-a e faço o oposto para que a frustração possa ser preenchida por uma forma de inteligente descoordenação...

Outras frustrações levantam-se por parte de a quem não agrada esta faceta.
E assim não sou capaz de a repetir a quem poderia valorizar de alguma maneira.
Fico-me por algo sóbrio, sério, desgostoso.
E assim perco-me novamente numa esperança de que desta vez não tenha que tentar nada para que haja uma alteração.
E assim perco muito de mim e do resto.
E assim perco...

Vitória?

A solidão torna-se um hábito.
Raciocina-se o sentimento afirmando que a solidão é o melhor estado... nunca se admite a saudade que ainda se faz sentir...
Pensamento mais inteligente,
sentimento mais falso.
Decisão legítima, permanente e impossível,
pois não é permitida tal opção a essas pessoas que não querem mas se forçam a tal acto.
Desafio essas pessoas a dizerem não.

Se conseguirem com que essa decisão tenha bases válidas onde se apoiar,
que mostrem.

Desafio essas pessoas a negarem esse estado e a procurarem aquilo que uma determinada situação as ensinou a não desejar.
Se o amor lhes foi retirado, não o desejem distante.
Tenha a potência da ameaça sido tanta, não a retribuam a ninguém.
Pois a possibilidade de encontrar alguma saudade em alguém novo é tão maior...
Aquilo que já foram de melhor, mostrem-no a alguém que ainda não partilhou de nada vosso.
Não sigam as pisadas de algo que não agrada, não vos identifica.
Num único momento, esqueçam o instinto do vosso pensamento e sigam essas sensações momentâneas que vos faz arriscar em algo desconhecido.

Se estes conselhos os sigo eu?
Aqui reclamo a velha máxima e peço que façam como digo
e não como faço,
pois a vida de outros conseguirei eu aguentar em cima dos meus largos ombros.
Mas a minha própria...

Apenas desejo a felicidade de outros, não a minha própria.
Em alguma situação poder eu contribuir para a felicidade de outro e encontrarei eu aí a minha...

sábado, 3 de julho de 2010

Pena que sejam necessários momentos de crise para que uma família mostre realmente os seus verdadeiros laços afectivos.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Bom dia, para ti também

Encontro-me variadas vezes a procurar vídeos com a Megan Fox. Depois das suas marcantes aparições em alguns filmes, seria inevitável que tal não acontecesse.
E, de todas as vezes, nunca as minhas expectativas são igualadas. Nenhum vídeo alguma vez me fascina. Expõem sempre demasiado. Não existe espaço para a provocação, para a imaginação, para o desejo...
Mas encontrei-o, por acaso, sem que o andasse a procurar especificamente. Com uma belíssima edição, com um expressivo uso da luz, com uma temática simples e directa. Um dia na vida de Megan Fox.
E quais poderão ser as ofertas de sensualidade de tal banalidade quotidiana, será a pergunta óbvia?

O sorriso ao acordar, o alongado espreguiçar, o olhar sobre a janela, o vestir da camisa, o passar do pé pela água, o reflexo da luz na pele, o lamber dos lábios, a dentada num pedaço de carne, o ajeitar dos cabelos, o debruçar sobre o balcão, o ajeitar do vestido, o cair do cabelo sobre a cara, o passar dos dedos pelos lábios, a promessa de um encontro...

As sensações provocadas por pequenos gestos que nos incitam a imaginar possibilidades para além da nossa realidade pessoal.
Poderá haver algo mais sensual que as subtilezas da atitude despreocupada de uma mulher?...
Deixo-vos, assim, o vídeo que me suscitou todo este interesse maior.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Sensação

Palavras,
tudo são palavras.
Todas trazem sentimentos,
agradáveis, enriquecedores,
aterrorizantes ou cansativos.
Uma só palavra pode destruir uma vida.
O silêncio por vezes aparenta-se melhor, mas não é suficiente.
Temos espaço para algumas coisas.
Para outras, a lotação está mais do que apenas esgotada.
A paciência termina,
o cansaço sufoca,
a vida corrói.
Se melhorará?
As palavras o dirão, como sempre o fazem...

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Por novas marés

On Stranger Tides leva-nos por estranhas marés, desconhecidas mas extraordinariamente belas.

Em primeiro lugar, é de referir a vasta pesquisa que o autor deverá ter feito, pois a história maravilha-nos com a oferta de mitos e lendas piratas que apenas ouvimos como histórias de horror ou de embalar. Navios fantasmas, magia negra e a Fonte da Juventude são apenas algumas das maravilhas com que Tim Powers nos faz deparar numa história que nos cativa a atenção tão depressa.

Efectivamente, espanta-nos a longevidade da imaginação do autor, por proporcionar a todas as personagens, principais ou secundárias, um papel igualmente importante na sua mente dando-lhes, assim, histórias individuais, narradas no presente, sem interrupções ou tempos mortos num enredo já por si complexo mas sempre bem gerado, graças à forma fluida com que varia entre o enredo principal e as narrativas episódicas.

Da mesma forma, esta fórmula de escrita e a pesquisa feita permite intercalar o romance histórico com o mundo fantástico proveniente da visão do autor, sem que se note essa alternância, fazendo-nos acreditar em todos os acontecimentos que nos são narrados e em cada personagem, sejam reais ou fictícias. E aqui devo destacar a forma como Tim Powers lida com a famosa morte do Barba Negra, fazendo-nos olhar para cada linha que se segue e ler cada palavra escrita, mostrando-nos bem os horrores de tal acontecimento que muitos desconhecem como uma das mais horríveis execuções de sempre.

Também é de salientar o estilo de escrita de Tim Powers, a qual se revela elegantíssima e arrojada, com belas descrições, mesmo nos momentos mais violentos («(…) o som metálico de um segundo prolongado vibrando em tensão.»), tornando cenas, que provavelmente vistas pelos nossos olhos seriam banais, em autênticas cenas de terror, com uma descrição exagerada e uma alternância entre sonantes adjectivos e advérbios e um vocabulário brusco que enfatiza cada movimento e consequência, em detrimento de um vocabulário mais usual, como a presente citação ilustra bem:

«As duas explosões foram simultâneas, mas, enquanto o tiro do capitão não atingiu Davies, indo cravar um buraco no braço do oficial que se encontrava à sua direita, o tiro de Shandy furou a garganta do capitão e atirou o esguichante corpo, em ressaltos, da ponta da antepara até ao convés, onde tombou estrondosamente.»

A fantasia revela-se um género ainda com muito para oferecer, mesmo que os temas se revelem aparentemente sem grandes motivos para tal exploração literária. Este livro é, assim, uma agradável surpresa e, porque não usar uma expressão clássica, uma maravilhosa viagem.

Vodu nas Caraíbas (Tim Powers)
Saída de Emergência
1ª edição – Maio de 2007
317 páginas