quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Irreal

Tomo-me por certo
e nessa certeza tento ser o que penso que seja
E quando vejo que o que penso não pensam os outros
ou que o que quero que os outros vejam de mim 
não é o que de mim próprio vejo
caio por terra
não por isso acontecer
mas por essa certeza do meu ser não ser mais
Na incerteza de uma existência certa
esqueço o que quero ser para os outros
ou o que de mim mesmo espero se alguma coisa ainda
E tantos momentos desgarrados dessa incerteza
mantêm-me a pé
não por revelarem alguma coisa
mas por não o revelarem 
deixando-me na deriva de algo incerto
mais certo que a certeza que antes me assolava

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Obrigada

Estou a apaixonar-me
não por alguém
Estou a apaixonar-me por algo que não conhecia sequer a possibilidade de tal paixão
tão controlada e emocional
Estou a apaixonar-me por uma amizade
à qual já conhecia valor e da qual já conhecia lembranças tão fortes
Estou a apaixonar-me pela lembrança de momentos ganhos
numa vida de constantes construções
Estou a apaixonar-me pelos fracos momentos em que essa relação esmorece
para um momento mais tarde ser o que foi
Estou a apaixonar-me por uma relação que me relembra tantas vezes
a razão de ainda persistir e de nela me poder rever
Estou a apaixonar-me pela razão de ser quem sou hoje
devido à aprendizagem que essa amizade me proporcionou

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Beleza da incerteza

      Passados tantos anos sobre esse raro evento
deixei de o saber reconhecer
Ou talvez nunca mais ele tenha surgido
como naquele já ido presente
Será por ter ficado mais exigente naquilo que espero ver
que acabo por não aproveitar o melhor dele
Como posso eu determinar uma relação
por aquilo que se diz faz oferece ou quer
Como posso saber o que quero de alguém
      Passados tantos anos deixei de me preocupar
e de esperar seja o que for
Por talvez ser a melhor forma de viver
sem ser no querer de um passado já vindo
Desejar algo mais poderá esperar
no desejo de querer algo que não o desejado
Deixo-me ir no que existe
sem saber ao certo o que é
Deixo-me ir naquilo que se pode tornar

terça-feira, 24 de julho de 2012

Revelação

Percorrendo o seu caminho, ele se mantinha
Sem qualquer olhar sobre ninguém
Por não haver conhecimento que quisesse travar
Nem conhecimento que já tivesse travado
Deixava-se ir num mundo absorto na sua própria seriedade
Por saber que nada mais faria falta nos minutos que gastava nessa rotina
Apesar de, diferentemente de todos que o rodeavam, ele o desejar
E, como reposta divina que inesperadamente surge, ele viu-a
De relance entrava no sítio onde ele se encontrava
Não era desconhecida mas o seu sorriso rapidamente esboçado
Prolongou-se durante horas na sua memória
Por revelar algo mais a que a sua seriedade não conhecia
Algo mais para a qual a esperança o não poderia preparar
E reconhecendo nesse presente passado num momento rasteiro
As memórias de momentos por vir, ele se confunde
Julgando poder perder esse momento no desinteresse da sua seriedade
Ou poder nesse momento a sua seriedade se perder
Perdendo a distinção entre um momento e outro
Profere então a palavra que decidiria como esse momento ficaria na memória de ambos
Olá...