sábado, 6 de setembro de 2025

A jogadora

Ela posiciona-se. Pés afastados, torso inclinado, num equilibrado jogo. O barro fixa-se nas solas, sob o peso das suas dúvidas. O limite branco na sua frente demarca as inseguranças iniciais, que ela atrasa sempre em ultrapassar.
Sente a contração das suas pernas, esguias mas musculadas, enquanto desenha rigidamente um arco com os calcanhares. O sangue esvai-se das suas mãos à medida que empunha mais veemente o cabo da raquete, procurando não largar a esperança da vitória.
Uma única gota de suor, gelado, escorre desde a nuca pela ondulação das suas costas. A temperatura do seu corpo contraria, num fugaz momento, o ar em seu redor. Os poros da sua pele, bronzeada como o solo do campo, encolhem perante a brisa momentânea que a atravessa como uma lança.
O pulsar acelerado do seu nervosismo, visível no seu ventre semi exposto, relembra-a do sentimento ininterrumpto de infiabilidade de cada jogada, cada movimento seu, cada escolha por determinar.
Ela desvia os fios negros entraçados que repousam suaves no seu ombro. O seu olhar, alinhado com a malha que limita as metades do campo, fixa o oponente do outro lado, longínquo, diminuído.
A bola cresce então no seu olhar.

Todos os segundos de preparação desfazem-se no que parece ser um instinto imediato. A raquete, tornada agora extensão de si própria, serpenteia no final do seu braço, formando a semi circunferência que, espera, permitirá devolver a bola permanentemente ao lado contrário. Qual bailarina, a saia acompanha atrasadamente a rotação da sua delicada cintura. E novamente, a cada repetida movimentação. Uma dança não planeada onde nunca é certo quem lidera.
Ela posiciona-se. O seu pé agora sobre a marca branca. Um pequeno passo rumo à confiança que teima em surgir, mas que ela agora começa a reclamar em seu favor.A respiração dela cessa durante um longo segundo, como se toda a atmosfera se tivesse ausentado. Os olhos, fechados, abrem-se na direcção do azul etéreo. De braço em riste, liberta a bola até, no epítemo da sua elevação, esta criar um repentino eclipse, alinhada perfeitamente com a luz calorosa daquela tarde. Nesse movimento, ela expõe a sua silhueta, qual estátua hilénica, elegante, firme, como que almejando à áurea esfera acima dela.
O pó argiloso liberta-se debaixo dos seus pés, no momento em que se dá a sua breve ascensão. Com o braço contraído, punho cerrado, arqueia a raquete sobre si, expondo agora a sua segura posição num batimento forte e certeiro cujo desfecho cria oscilações por todo o seu corpo. A dança improvisada entre os oponentes recomeça, o pulsar no seu peito agora estável.
A peça tensionada que lhe cobre o tronco é premiada pelas manchas do cansaço. A sua fronte revela-se encharcada no controlo que batalhou para estabelecer.
E assim, o treino termina. «Amanhã recomeçamos.»

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