segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Anónimo

Sou o figurante em fundo
de que ninguém dá conta
Parte do cenário fixo
a que ninguém remonta
Tendencialmente mundano
mantenho-me distante
Em alturas inacessível
embora nunca ausente
A memória de mim
a poucos é confiada
A essência de quem sou
soa, embora, desperdiçada
Assim permaneço
em momentos contido
Até no final das contas
prostar somente esquecido

sábado, 6 de setembro de 2025

A jogadora

Ela posiciona-se. Pés afastados, torso inclinado, num equilibrado jogo. O barro fixa-se nas solas, sob o peso das suas dúvidas. O limite branco na sua frente demarca as inseguranças iniciais, que ela atrasa sempre em ultrapassar.
Sente a contração das suas pernas, esguias mas musculadas, enquanto desenha rigidamente um arco com os calcanhares. O sangue esvai-se das suas mãos à medida que empunha mais veemente o cabo da raquete, procurando não largar a esperança da vitória.
Uma única gota de suor, gelado, escorre desde a nuca pela ondulação das suas costas. A temperatura do seu corpo contraria, num fugaz momento, o ar em seu redor. Os poros da sua pele, bronzeada como o solo do campo, encolhem perante a brisa momentânea que a atravessa como uma lança.
O pulsar acelerado do seu nervosismo, visível no seu ventre semi exposto, relembra-a do sentimento ininterrumpto de infiabilidade de cada jogada, cada movimento seu, cada escolha por determinar.
Ela desvia os fios negros entraçados que repousam suaves no seu ombro. O seu olhar, alinhado com a malha que limita as metades do campo, fixa o oponente do outro lado, longínquo, diminuído.
A bola cresce então no seu olhar.

Todos os segundos de preparação desfazem-se no que parece ser um instinto imediato. A raquete, tornada agora extensão de si própria, serpenteia no final do seu braço, formando a semi circunferência que, espera, permitirá devolver a bola permanentemente ao lado contrário. Qual bailarina, a saia acompanha atrasadamente a rotação da sua delicada cintura. E novamente, a cada repetida movimentação. Uma dança não planeada onde nunca é certo quem lidera.
Ela posiciona-se. O seu pé agora sobre a marca branca. Um pequeno passo rumo à confiança que teima em surgir, mas que ela agora começa a reclamar em seu favor.A respiração dela cessa durante um longo segundo, como se toda a atmosfera se tivesse ausentado. Os olhos, fechados, abrem-se na direcção do azul etéreo. De braço em riste, liberta a bola até, no epítemo da sua elevação, esta criar um repentino eclipse, alinhada perfeitamente com a luz calorosa daquela tarde. Nesse movimento, ela expõe a sua silhueta, qual estátua hilénica, elegante, firme, como que almejando à áurea esfera acima dela.
O pó argiloso liberta-se debaixo dos seus pés, no momento em que se dá a sua breve ascensão. Com o braço contraído, punho cerrado, arqueia a raquete sobre si, expondo agora a sua segura posição num batimento forte e certeiro cujo desfecho cria oscilações por todo o seu corpo. A dança improvisada entre os oponentes recomeça, o pulsar no seu peito agora estável.
A peça tensionada que lhe cobre o tronco é premiada pelas manchas do cansaço. A sua fronte revela-se encharcada no controlo que batalhou para estabelecer.
E assim, o treino termina. «Amanhã recomeçamos.»

segunda-feira, 10 de julho de 2023

Além de si


Um feixe de luz torneando a esbelta silhueta de uma figura que pousa suavemente sobre o infinito que a plataforma cria com o entorno para onde se direcciona.
Ela espera pelo sonho que a leve longinquamente, fechando os olhos para absorver a calma sinergia de uma ondulação que não lhe pede mais que um sentimento, mais que um único pensamento.
Ela respira, inspira, enche inteiramente o peito, sem conhecimento das circunstâncias que a sua liberdade cria. Ela sente o pulsar no seu ventre, nervosismo tornado entusiasmo pelo desconhecimento do que a espera.
Cerra os punhos e o olhar. Não salta, deixa-se discorrer sobre a infinitude da sua imaginação. Abre as mãos, já certa do seu intuito, e permite-se olhar para o caminho que virá.

quinta-feira, 31 de março de 2022

A mulher

É a esquecida resposta à cínica condição dos quem se mantêm na sua esperançosa ignobilidade
  a eterna lembrança do romantismo que povoa a finitude da memória
É a certeza inescapável dos que escolhem a facilidade da irracionalidade
  expressão de indispensabilidade perante a fraqueza da aparência
É a essencial movimentação na contrariedade da incorruptibilidade
  o enamoramento inconsequente dos que não lhe oferecem reconhecimento
É a desejada maquinação na necessária reforma dos que preferem a estagnação
  o desgosto da incorrespondência, cristalizado na ternurenta dádiva do seu carinho

É tanto mais que nunca os condicionamentos deste definido recinto permitiriam inteiramente expressar
  expressão orquestrada de blues, poesia incompreendida de um sentimento de impotência

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Véu caído

Ali estava

Olhando para o que passei, não sei mais o que senti.
Pois, se assumi a posição sobre quem julgava amar, o peso de tantos anos deixou de pousar sobre os meus ombros, sobre o meu coração, sobre o meu pensamento. Peso esse advindo de uma inexistente verdade, inalcançável destino que julgava ser o meu. Peso esse que nunca deveria ser presente face a quem se ama.

E tendo arrancado este manto que me toldava e entorpecia, fazendo-me avançar medrosamente por entre vontades que não eram minhas, a claridade de um antigo universo, entretanto renovado, assaltou-me inesperadamente.
Não mais sinto culpa, não mais sinto expectativa, não mais sinto ter que corresponder a quem sentisse ter que o fazer.
E ao recuperar a confiança que nunca tive, reconheci-a sempre expressada numa única pessoa.

Uma pessoa que, escondida pelo manto do que eu pensava serem os meus sentidos desejos, entendi agora ser a que realmente amei todos estes anos.
Não vivamente como a que todos estes anos ocupou o meu pensamento, a quem tentei corresponder sem razão. Antes ocupando o fundo da minha felicidade, a quem sempre fui emocionalmente honesto, a quem nunca tive que provar nada para além do que possuo. E face o pior de mim, nunca se deteve.
E sempre persistiu, assim até hoje, no meu pensamento, no meu coração. Os seus receios, os meus próprios. As suas dores, os meus pesadelos. O seu riso, a minha felicidade.

Não deixo, pois, de recear que seja tudo isso apenas expressão contrária à anterior, forma de depositar um sentimento em detrimento de um outro, melhorado. Mas não me sinto escondido por trás de quem me possa amar, antes de peito aberto, amando-me a mim próprio, disposto a deixar-me ser amado.
Não mais sinto culpa, não mais sinto expectativa, não mais sinto ter que corresponder a quem sentisse ter que o fazer.
E ao recuperar a confiança que nunca tivera, reconheci-a antes expressada numa única pessoa.

Uma única pessoa a quem nunca deixarei de amar.
Porque eu mereço ser o melhor que posso ser,
Mas porque tu também mereces o melhor de mim,

Aqui estou

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Resignação

Assola-me o medo da irrelevância,
Que cada gesto seja insuficiente,
Cada palavra inconsequente
Sinto os meus feitos lesados,
Se deles ela não retira legado,
Uma permanente lembrança

Só queria que fosse eu
Se de alguém ela se lembrasse,
Em alguém se suportasse
Como quando eu dela me recordo,
Aos seus padrões me disponho,
Ainda que presente ela não esteja

Absurda causa de tristeza,
A procura de sentido permanente
A quem preparado a dar-me eu esteja,
Mas não de mim a receber ela disposta
O que possua por herança
Fique de tudo pouco mais que nada,
A um sentimento este percurso reservado,
O desconforto da esperança

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Expectativa #2

Esperas por mim? perguntou ela.

Lentamente, a sua mente virou-se para aquelas horas que passara com ela no dia anterior, em que nem suspeitava ainda do sentimento profundo por ela que lhe corria pelo peito e estagnava meramente no segundo em que se separava dela. Aquele segundo em que o tempo voltava a seguir em frente ao invés do tempo que ganhava em presença dela. Presença essa que, desde que a passara a conhecer como a mulher que é, mais do que aparentava aos olhos da maioria, lhe fazia pertencer a algo mais que si próprio.

Sim, foi a única palavra que referiu em resposta, apercebendo-se que nem um segundo se passara entre a sua resposta e a pergunta que ela lhe fizera.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

M

Continuo sem entender
A angústia, a ansiedade, a expectativa
Serão eles sinais daquilo que nunca senti?
Porque nao existirá mais nada na minha mente,
No meu peito,
Capaz de me livrar da perspectiva de ter o que nunca terei?
Fosse eu capaz de proferir, de sugerir
Que o que eu sinto nao é meramente o que digo sentir
Mas será aquilo que espero?
Poderá ser a confusão de uma mente solteira,
De um peito não abraçado
Oiço-a, vejo-a
Em nada muda a minha vontade
Porque continuarei tão enfraquecido, apesar da força que afirmo ela me dar?
Crio a angústia, a ansiedade, a expectativa
Que sei que apenas desaparecerão quando a não vir, a não ouvir mais
Mas se quero que ela aqui continue...
Como posso eu continuar na contrariedade das minhas decisões?
Fosse eu capaz de sugerir, de proferir
A importância que ela tem no meu quotidiano
Desapareceria
A expectativa, a ansiedade, a angústia
Que se cria quando oiço a voz dela ao meu ouvido
Ao saber que nos quero assim
Mas a quero ainda mais

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Potencial desperdiçado

"Ernest Cline (...) devotes a large portion of his time to geeking out". E foi precisamente e não mais que isso que ele fez com este livro.

Quando me falaram do tema deste livro, a minha mente remeteu imediatamente para um outro que já antes tinha lido e o qual tinha sido uma surpresa porque, ao contrário do habitual, não se mantinha pela ideia superficial que dava o mote mas enveredava por linhas secundárias igualmente interessantes, ainda que de forma não muito aprofundada.
Esse não é o caso deste livro.

Desde o início (leia-se, a capa) faz-se uma comparação com The Matrix, pela ideia de uma realidade virtual onde os humanos habitam mais que a sua própria realidade. E esperava que o potencial que parecia aí estar descrito correspondesse às expectativas, ainda que não demasiado elevadas, que criei.
Infelizmente, percebe-se a falta de maturidade do autor (que se reconhece, aliás, por este ser o seu primeiro livro e pelas duas curtas linhas que perfazem a sua biografia) na forma como aborda as ideias primárias que tem como base. Logo à partida, a forma como o protagonista está (d)escrito mostra que este livro está na linha de uns tais Jogos da Fome, e pretende meramente atingir o mesmo público alvo, que serão os mais jovens (aliás, como Epic, livro que referi no início).

Mas, ao contrário de Suzanne Collins, Cline não consegue aprofundar o seu protagonista ao longo da narrativa, e o próprio uso de uma narração pela voz desse mesmo protagonista mostra apenas preguiça, já que não contribui em nada para uma visão diferenciada de um qualquer narrador omnipresente. Aliás, muita da informação que nos vai sendo descrita sobre o mundo em que a acção se passa parece forçadamente inserida pelo meio da acção e da visão da personagem principal.

Aliás, o livro vai buscar a sua força pela constante referenciação dos anos 1980, o que contradiz logo à partida o público alvo a que o livro parece almejar. E por vezes essa referenciação sobrepõe-se àquilo que deveria ser a narrativa principal, passando rapidamente a acção de um momento de alguma tensão e expectativa para uma caracterização de um veículo fruto da conjugação dos nossos favoritos dos anos 80. Mais, no momento em que a vitória parece pender para os antagonistas (gerais vilões corporativos sem qualquer desenvolvimento), rapidamente o herói volta a uma "maré de sorte", passando novamente para a frente da competição que perfaz a narrativa, o que retira imediatamente qualquer tensão que pudesse estar a ser criada.

Esta quebra narrativa denota-se mais, no entanto, chegados ao terceiro acto (ou, como escrito, terceiro nível) do livro. Aí, o protagonista, apenas para mero avançar da trama, detém elevados conhecimentos de hacking, dignos de um certo Neo, até então não realmente explorados. Isto demonstra a inconsistência do protagonista. Protagonista, aliás, que assume todos e mais alguns lugares-comuns das personagens de várias BDs. Órfão, criado por um parente que não tem em vista mais que o dinheiro, solitário, apaixonado por uma rapariga que sabe que nunca poderá ter (até poder, claro).
Isto não será de estranhar, visto também haver claras influências de BDs. Mas novamente, não parece fazer sentido num livro que claramente pretende chegar às pessoas que cresceram nos anos 80. Até porque muitas vezes descreve forçadamente uma série ou filme, porque o autor se terá lembrado que os mais jovens não saberão mais de metade dessas coisas.

Claro está, o livro não deixa de apresentar ideias interessantes, que partem precisamente da situação de uma realidade virtual em que o protagonista chega a passar dias ou semanas seguidos sem sequer parar. Mas não passam de meros parágrafos que nunca são desenvolvidos. Como por exemplo, a ideia de sexo virtual, que é referido como masturbação glorificada e assitida (por estas mesmas palavras), o que mostra que o protagonista começa a sentir um certo desligamento na sua constante presença na realidade virtual.
Aliás, isto será reforçado mais tarde por uma frase, que provavelmente será opinião do próprio autor: "(...) I never felt at home in the real world. (...) That was when I realized, as terrifying and painful as reality can be, it's also the only place where you can find true happiness. Because reality is real.".

Apesar disso, o que interessa ao longo do livro nunca é essa dicotomia, mas sim o jogo em que eles se encontram e a sua caracterização extensa. Aliás, às tantas, a favor de nos sentirmos dentro desta plataforma virtual, é esquecido o facto de que pessoas na vida real estão a ser mortas em prol de uma vitória nesta competição. Parecem não haver realmente consequências nesta distopia futurista até que o autor queira.
Chegados ao final, consegue-se ler tudo na diagonal, já que são clichés atrás de clichés, e o final já nos é conhecido desde o início.

Tal como um certo Patrick Rothfuss que é citado na contra-capa, "This book pleased every geeky bone in my geeky body. I felt it was written just for me". E é precisamente isso que este livro é. Uma enciclopédia extensiva dos anos 80, que mais nada serve que não um desejo nostálgico do autor e, eventualmente, dos leitores que o partilhem.
Só espero que chegada a adaptação cinematográfica, Spielberg consiga injectar uma boa dose de interesse amadurecido que este livro não tem.


Ready Player One (Ernest Cline)
Arrow Books
1ª Edição - 2012
384 páginas

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Expectativa

«Não queres esperar por mim?»
Perguntou-me antes de regressarmos às nossas casas.

Como lhe poderia dizer que todos os momentos que passei com ela tinham permanecido na esperança de regressar a ela permanentemente? Que a sua ausência me perturba mais que qualquer pesar?
Como lhe poderia dizer que fiz do objectivo do meu quotidiano esperar por ela, aguardar mais um momento que seja sorrindo sobre o seu olhar largo e brilhante? Que durante anos a única pessoa em quem confiei realmente o meu ser foi ela, sem que sequer se apercebesse da minha entrega?

Respondi-lhe meramente
«Claro»
aproveitando os momentos que partilhamos como a maior preciosidade que me é proporcionada ao longo dos nossos quotidianos, velando pela felicidade dela que perfará a minha própria, guardando a sua memória até ao dia seguinte em que conte com a sua presença novamente.

*

«Não queres esperar por mim?»
Perguntou-me antes de regressarmos às nossas casas...