Refiro desde já que, à data de leitura do livro, não vi a adaptação cinematográfica do mesmo, pelo que não estou por ela influenciado.
O narrador e sua voz são essenciais à percepção de uma narrativa ficcional literária. E será este um dos maiores pecados deste livro. Se existe a tentativa de manutenção de alguma tensão ao longo da expedição contada, sobre o destino da expedição e protagonista, o facto dela narrar tudo no tempo passado, acaba por revelar imediatamente a certeza da sua sobrevivência, desligando-nos de qualquer tensão ao longo do que nos é narrado.
E se a própria sinopse refere que os "(...) acontecimentos bizarros (...) minam a confiança entre os membros da expedição (...)", o facto é que não é trabalhada qualquer relação entre as mulheres que compõem a equipa para nos ligarmos, durante a primeira metade, ao desfazimento da mesma.
Se a desconfiança perante a psicóloga faz sentido –face as hipnoses que cria e que poderão dissumular motivos ulteriores–, entre as restantes investigadoras não existe maior nível de camaradagem que impacte nos posteriores confrontos entre elas. Acabamos por não nos importar, tal como a protagonista parece não se importar, e a primeira metada do livro acaba por se tornar um pouco aborrecida (principalmente, por constantes trocas entre a bióloga e as outras sobre se a estrutura investigada se trata na verdade de um túnel ou uma torre...).
Aliás, não será mais afectada (ao menos, inicialmente) por essa aparente falta de caracterização que a própria protagonista. Digo aparente, por ser claro que o autor pretende que isso seja o seu crecimento emocional, através da revelação pela própria de constantes memórias dos tempos com o marido, em que reflecte (sobre) os seus próprios sentimentos e reacções perante ele e os acontecimentos prévios à expedição.
E isso é relembrado até ao final, onde a protagonista revela "E como desejo agora (...) que a minha ida para a Área X tivesse sido por causa dele!...", apercebendo-se da sua insuficiente ligação emotiva. Pena que esta sua revelação se faça meras páginas previamente ao fim do livro, sem demais francas demonstrações desse entendimento.
Acaba por se tornar esta a contradição do romance, onde o desligamento emocional da bióloga não nos permite empatizar de grande forma com ela, nem sentir os acontecimentos como impactantes. Aliás, quando ela diz "Creio que a reação lógica a uma descoberta daquelas seria ter dado um salto para trás em choque, mas, naquela fase, estava já imune a esse tipo de reações (...)", a sua evolução parece ser contrária ao que o livro tenta fazer com os momentos em analepse. Onde as grandes revelações sobre a Área X (que, imagino, deverão levar às sequelas) não são mais que literais registos num diário, que se tornam mais surreais no final, mas que chegam demasiado tarde para deixar o impacto suficiente no leitor.
Aniquilação (Jeff Vandermeer)
Saída de Emergência
1ª Edição - 2016
222 páginas
Saída de Emergência
1ª Edição - 2016
222 páginas

