sexta-feira, 21 de agosto de 2026

[+18] Implícito

Entraram no quarto. Nesse instante, não importava como tinham ali chegado. A intensidade dos seus explícitos desejos, dos beijos prolongados, molhados, abafava qualquer outro pensamento. Despiram-se mutuamente, a sua blusa, a camisa dele, a saia, as calças, cada peça caía no chão à medida que se dirigiam à cama. Tiraram as peças mais íntimas, agora completamente despidos de qualquer inibição. Calma mas convictamente, ela recuou sobre o colchão e deixou-se cair sobre os lençóis, enquanto ele a seguia de perto.

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

 Ter filhos é das decisões mais egoístas que um ser humano pode tomar.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Sereia

A praia estava praticamente deserta.
Perante as imensas ravinas, quase nenhum ser povoava o imenso areal, senão umas quantas pessoas que, como eu, traçavam a mesma rotineira caminhada matinal. Então vi-a, sentada sobre uma pequena formação rochosa perdida naquela costeira paisagem. Mais nenhum dos meus espontâneos acompanhantes a olhava. Apenas eu me parecia interessar por aquela isolada figura. O seu olhar intermitente entre os seus pés e o horizonte defronte dela, como se questionasse a sua presença naquele sítio. Enquanto percorria os meus passos predestinados, pensava se deveria interromper o destino dessa manhã, se a deveria abordar, como o deveria fazer, tornasse-se essa a minha inesperada vontade. Continuei, admirando-a ainda, desejando entender o que a levara até àquele poiso improvisado, e a permanecer ali, prostrada de forma tão humilde, tranquilizada. O desejo de tomar a sua atenção crescia.
Cruzei aquela ninfa sem pausar sequer, sem um olhar mais direccionado. 
Umas quantas passadas a seguir, decidi observar por sobre o meu ombro, procurando um último vislumbre sobre a melancólica presença. Ela porém não se encontrava mais sentada. Levantara-se e caminhava na direcção oposta às ravinas atrás dela, a água salgada nivelada pela barriga da perna. Vi-a naquele momento quase em contra-luz, a solarenga manhã pintando a sua esbelta figura, enquanto ajeitava o longo e brilhante cabelo, escorrido pelas costas. O refinado semblante, o peito pequeno mas sobressaído, o ventre magro e ondulado. Então, olhou para a posição onde me encontrava. O seu olhar penetrava através da sombra em que se encontrava, como se uma segunda estrela fizesse sobressair o seu brilho. O desejo de a compreender vincava-se. Não sabendo se o seu olhar se me direccionava, retornei à minha intenção, e continuei a passos largos, tentando escapar à situação.
*
Quando momentos depois retornava ao ponto de partida daquela manhã, cruzando o sítio onde a vira, já não a encontrava. Por entre a ainda finita população ali presente, não a reconhecia em lado algum, e a única saída possível implicava que a tivesse cruzado novamente.
Não sei se continuara a sua caminhada pelo mar adentro, se sequer era real. Sei apenas que guardo aquele olhar até hoje. Desejo tornado arrependimento tornado desejo.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Sempre moderno

Atrevo-me a concordar com a ideia disposta no prefácio, de que o protagonista, de facto, não toma as suas acções por amor, mas por orgulho próprio. Talvez mesmo por uma vontade auto-comiserativa de se mostrar um honrado romântico, onde as suas acções de resto foram tomadas por teimosa e desafiante disputa.
Revela bem isso, creio, quando o protagonista, perante a sua esperada sentença, afirma «A forca é um triunfo, quando se encontra ao cabo do caminho da honra». Como se as suas acções não tivessem sido tomadas em favor do amor que supostamente as justificam, antes como um sinal de afirmação pessoal, mesmo que fatal. O protagonista aceita o seu destinado enclausuramento por motivos de orgulho, mesmo perante uma alternativa que o deixasse mais próximo da amante, no entanto arrependendo-se face, como o próprio autor refere, a fealdade da realidade que enfrenta.

Não devêramos nunca simpatizar com a personagem de Simão, que partilha a sua trágica condição com quem se cruze. Simão, o dito romântico, que nem parece inteiramente interessado em Teresa. Vê-se encurralado pelo trilho que traçou, por não poder dele retirar-se sem perda de sua honrosa figura. Será pela figura de Mariana que reconhece alguém que lhe tem uma verdadeira e desinteressada dedicação, e a quem apenas vê uma obrigação de eventual retribuição, mas a quem também direcciona os seus pensamentos, para além de Teresa.
Mariana, cuja personagem se revela a verdadeiramente trágica de toda a narrativa. A que se vê caída num inevitável triângulo amoroso, enamorada de Simão à medida que o auxilia na sua demanda reconhecidamente vã, e tem deveras o seu bem em vista. A que perde tudo por esse "nobre" homem que lhe não sabe sequer como agradecer, senão pedindo mais de si. Qual oportunista aproveitando-se de uma oportunidade que não pode desperdiçar.

É também em João da Cruz, personagem cujas observações de "sabedoria" popular simplista sobre as mulheres, que acabamos por entender o ridículo da situação de seu amo. Situação essa que demonstra a privilegiada posição de Simão, como a certo ponto o seu servente lhe dá directamente a entender. Crítica social simples mas clara, que acaba por expor o ridículo do caso amoroso, tornado tragédia apenas pela possibilidade dos amantes se poderem colocar em tal situação drástica pela sua distinta posição.
Ademais, o tom jovial e "gozão", verdadeiramente cómico, com que o autor descreve outras situações e personagens que rodeiam toma a trama, fazem parecer quase absurda a situação do par, e todo o melodrama shakespeariano evidente da obra, o que parece revelar um comentário subjacente de Castelo-Branco ao próprio género que utiliza como estrutura.

Não creio que o autor, por ver a sua obra repetidamente bem sucedida, tenha tido razão em a depreciar à altura, como descrito no início. Contrariamente, é um exercício desconstrutivo que pretende ilustrar todo o desenvolvimento trágico-romântico como, no final, inútil, e que se mantém aos dias de hoje uma moderníssima reinvenção do romance.

Amor de Perdição (Camilo Castelo Branco)
Alêtheia Editores - Expresso
1ª Edição - 2016
167 páginas

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Nunca costumo ir às festas de verão da minha igreja, porque dizem sempre para ter cuidado com churrascos e beatas.