quinta-feira, 30 de julho de 2026

Em seu nome

Mal ou bem, The Martian criou uma determinada expectativa para o que Andy Weir traria como escritor. Uma narração alicerçada o máximo possível num discurso científico plausível, para suportar uma estória que apenas podia ocorrer fora do nosso planeta, aliada a um humor simples, circunstancial de uma pesonagem que tenta ajustar-se à realidade extrema em que se vê repentinamente inserido.
Se estes factos pareciam coadunar-se num conjunto coeso nessa obra de estreia de Weir, o oposto é verdade com este Artemis.

Não será de estranhar à partida, o comentário de Ernest Cline na capa, já que se denota o mesmo tipo de fanatismo mal incorporado na estória, ainda que não tão drástico ou espalhafatoso como o caso desse outro (com Ready Player One).
Apesar de escassas, as referências à cultura popular (de filmes, particularmente de ficção científica, mas não só), demonstram uma falta de aptidão em escrever coerentemente entre os diálogos e a narração. Sendo o livro narrado pela própria protagonista, uma rapariga, que desde os 6 anos de idade que vive na titular cidade, na Lua onde a internet não é uma comodidade generalizada, uma rapariga de 26 anos pobre que vive num cubículo sem sequer lavabo, obrigada a virar-se para o contrabando para sobreviver, o ocasional comentário cinemático parece inteiramente descabido, especialmente dado os pormenores em que se foca.
Seja a risca da indumentária de Han Solo, ou o número específico de uma nave de uma das temporadas originais de Star Trek que a própria se questiona por que sequer se lembra, o autor parece nesses momentos esquecer-se em nome de quem está a escrever. Mas é óbvio: em seu.

Pior que isso, toda a personalidade da protagonista é, simplesmente, irritante. Em todos os diálogos, com todas as personagens com que se cruza, a troca geralmente passa por uma pergunta sarcástica, seguida de uma resposta sarcástica, finalizando muitas vezes com um comentário agressivo ou ofensivo, seja em que circunstância ou com que personagem for.
A protagonista acaba por ser tão desprezível que, no final, após quase causar a morte de toda a população de Artemis, em vez de aceitar as eventuais consequências, ou tentar negociar diplomaticamente, apenas é capaz de pensar em si própria. O que faz sentido na sua persona de contrabandista e sobrevivente, mas que após 300 páginas, faz-nos questionar se houve algum crescimento na consciência da personagem.

Ainda assim, o maior pecado é Weir tecer uma estória cujo enquadramento no espaço lunar acaba por ser indiferente para o desenvolvimento da sua premissa. Se mesmo a eventual ideia de, criada uma colónia na Lua, se manter o mesmo tipo de divisão social que no planeta que orbita ser potencialmente interessante, o autor não está realmente interessado em desenvolver essas repercussões, fora as desaventuras de espionagem empresarial.
Enquanto a estória de uma contrabandista que se envolve num negócio ilegal com um milionário para a sabotagem de uma empresa, cujo cruzamento com um grupo mafioso a levará a ser perseguida por um assassino, nenhum elemento da narrativa é realmente enaltecido por se localizar na Lua, fora os pormenores específicos que o autor se necessita descrever por ter depositado aí o seu cenário. Mesmo o elemento que acabam por descobrir ser o real interesse das pessoas em jogo, poderia compor-se de uma qualquer tecnologia ou componente existente apenas num sítio do mundo.

Uma história tão genérica que o comentário na badana da capa sobre a sua potencial transformação numa série faz todo o sentido, se a imaginarmos como uma das milhentas esquecidas séries por que passamos o olhar numa pesquisa rápida numa qualquer plataforma de streaming.

 
Artemis (Andy Weir)
Topseller
1ª Edição - 2018
320 páginas

terça-feira, 28 de julho de 2026

A competição


Chega o dia. O temível peso das expectativas faz-se sentir sobre as suas pernas, cada passo em direcção à posição inicial mais pesado que o anterior. Conhece no entanto intimamente todas as variáveis.
Assim ela julga.

O seu corpo, moldado milimetricamente ao longo de meses, revela a sua determinação. O cansaço dos treinos manteve-a até então desperta, alertada para as suas limitações, convencida da sua resiliência.
Ela está preparada, pensa.
O jogo inicia. A dança habitual entre si e o seu oponente toma forma. Uma seguida de outra, a rapidez das suas passadas expõe os definidos músculos das suas pernas nuas.
Cada lance, cada jogada retira um pouco mais das suas reconhecidas forças. Sente o corpo esticar-se para lá do seu reconhecível limite, como se o seu espírito escapasse dos limites julgados maleáveis.

Dá-se o primeiro erro. O movimento dela não acompanha o seu pensamento, fazendo a bola sair mais baixo que o pretendido, contra a rede na sua frente. A raiva instantânea de tal passo em falso revela-se como uma pancada forte na sua coxa, acompanhada de um grito curto e inaudível.
Esperando uma reacção externa, ela vira o rosto perante o pequeno mas focado número de pessoas expectantes no exterior do campo, cuja atenção ela confunde com um silencioso julgamento. 

Apercebe-se agora que as inseguranças que julgara ter purgado, haviam ficado cobertas apenas pela preparação que oferecera ao seu físico, vaga esperança de que um aperfeiçoamento do seu corpo se estendesse ao juízo que o comanda
Num momento mais rápido que a luz que lhe beijava o rosto, a vergonha do seu erro eleva para primeiro plano as dúvidas que pensava ter enterrado após tantos meses.
É, infelizmente, o primeiro de vários inesperados erros. A frustração de cada lance falhado trespassa-a como um gume enterrado no seu firmado estômago, sinal cruel da traição das suas próprias expectativas.

Cada respiração, mais e mais pesada, revela as suas costelas, cada lufada uma busca pela sobrevivência, cada falta de ar uma impingida sentença.
Cada gota na fronte acumula-se num oceano de vergonha, embaraçosas marcas da sua aparente impreparação.
Cada tacada reverbera pelo seu corpo, cada passo, cada salto um intenso tremor, derrubando a sua inicial tenacidade.

Por cada jogada a seu favor, duplicam-se os erros. Seguindo cada sorriso alcançado, surgem as expressões de frustração. Após cada falhanço, mantém os olhos cerrados, tentando não cruzar o seu ponto de vista com o dos que acompanham no público cada movimento seu.
Cabisbaixa, retira-se do campo. O resultado espelha o destroçado esforço de tanto planeamento físico. O suor escorrido pelo perfil do seu rosto esconde as lágrimas que o acumulado esgotamento criou. 

Mentaliza no entanto que o ciclo que agora reinicia será a renovação da sua atitude. O espírito não pode quebrar, tal como o seu corpo não fez. A próxima oportunidade será melhor.
Assim ela espera.