Encontro-me nesta instituição, nesta dita escola, há uma década. Encontro-me agora no último dos três ciclos aqui existentes, e face as atitudes desinteressadas para com o legado deste programa de ensino, que surgem subtilmente como um martelo pneumático na cabeça, vejo-me, mais que obrigado, necessitado de fazer ver alguns aspectos que muitos parecem não querer reconhecer relativamente à Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa.
Dos meus colegas e amigos que me acompanharam durante o curso, obtenho praticamente um sentimento de aborrecimento e vergonha perante o seu percurso académico aqui. Falamos muitas vezes do curso como uma passagem entre conquistas de notas positivas, em vez de um sítio de aprendizagem. Olhamos para muitos dos nossos projectos académicos como um sintoma de vontades de quem nos ensina, e não como consequência de um desenvolvimento de um raciocínio crítico próprio por eles potenciado.
Bons professores contamos pelos dedos de uma mão, os que nos acompanharam, nos embutiram um sentido de apreciação e, da mesma forma, crítica ao papel essencial da arquitectura no quotidiano. Aqueles professores que pretenderam manter o ensino dos seus alunos como prioridade, ao invés de se apresentarem como mais um empregado substituível. São poucos esses que podemos olhar nos olhos e cumprimentar com um real sentido de agradecimento, pelo que nos proporcionaram durante aquele que deve ser o período que nos definirá para os nossos primeiros e consequentes passos profissionais.
No final, entregam-nos os diplomas falando da boa vontade e renome que a escola tem ganho, perante o desinteresse generalizado dos alunos que escolhem comparecer, talvez por oferecerem bebidas alcoólicas no final para nos fazer esquecer a reputação medíocre de que fomos testemunhas durantes anos. Abordam-nos como se o seu sucesso dependesse de aspectos externos de promoção e não da qualidade dos alunos seus representantes. Talvez seja até irónico que esta escola não exista em redes sociais profissionais como possibilidade de integrar na nossa formação, sendo nós obrigados a preencher um vazio sem nome com um nome vazio.
Toda esta nossa atitude se deve ao facto de notarmos que são jogos de poder, nunca totalmente disfarçados e à semelhança do que se vê num qualquer canal televisivo nacional, que muitas das vezes gerem as decisões tomadas. Mesmo quando tentámos fazer ouvir a nossa voz perante professores, nunca nos foi mostrado o respeito que merecemos, porque não nos esqueçamos nunca que somos, na verdade, igualmente necessários para construir a escola. As mudanças que vemos aqui ocorrer são meramente cosméticas, tentando obscurecer a incomunicabilidade entre disciplinas, professores ou órgãos que depois se vêem reflectidas no ensino que nos é oferecido e que esperam que engulamos sem saborear ou criticar.
Sou cristão, e talvez tenha sido o meu inerente sentimento de esperança que me tenha feito aqui permanecer até hoje. Esperança no que esta faculdade se possa transformar e proporcionar aos seus alunos. Esperança de que os seus alunos possam fazer parte de um seu futuro promissor, e não apenas de um passado facilmente esquecível. Mas num desafio auto-imposto de olhar em retrospectiva estes últimos dez anos, apercebo-me que talvez o que me tenha sido proporcionado ao longo desse período seja mais cinismo que gratidão. Não tenho na verdade qualquer intuito com este testemunho, senão apelar a que não se deixem cair numa rotina de trabalho que vos faça esquecer o intuito de aqui terem entrado. Se aqui me mantenho, é por acreditar no profissionalismo de com quem trabalho e estudo. Espero apenas que isso também se estenda a quem é suposto sentir-se inspirado a dar continuidade a esta instituição. O seus alunos.

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