Mal ou bem, The Martian criou uma determinada expectativa para o que Andy Weir traria como escritor. Uma narração alicerçada o máximo possível num discurso científico plausível, para suportar uma estória que apenas podia ocorrer fora do nosso planeta, aliada a um humor simples, circunstancial de uma pesonagem que tenta ajustar-se à realidade extrema em que se vê repentinamente inserido.
Se estes factos pareciam coadunar-se num conjunto coeso nessa obra de estreia de Weir, o oposto é verdade com este Artemis.
Não será de estranhar à partida, o comentário de Ernest Cline na capa, já que se denota o mesmo tipo de fanatismo mal incorporado na estória, ainda que não tão drástico ou espalhafatoso como o caso desse outro (com Ready Player One).
Apesar de escassas, as referências à cultura popular (de filmes, particularmente de ficção científica, mas não só), demonstram uma falta de aptidão em escrever coerentemente entre os diálogos e a narração. Sendo o livro narrado pela própria protagonista, uma rapariga, que desde os 6 anos de idade que vive na titular cidade, na Lua onde a internet não é uma comodidade generalizada, uma rapariga de 26 anos pobre que vive num cubículo sem sequer lavabo, obrigada a virar-se para o contrabando para sobreviver, o ocasional comentário cinemático parece inteiramente descabido, especialmente dado os pormenores em que se foca.
Seja a risca da indumentária de Han Solo, ou o número específico de uma nave de uma das temporadas originais de Star Trek que a própria se questiona por que sequer se lembra, o autor parece nesses momentos esquecer-se em nome de quem está a escrever. Mas é óbvio: em seu.
Pior que isso, toda a personalidade da protagonista é, simplesmente, irritante. Em todos os diálogos, com todas as personagens com que se cruza, a troca geralmente passa por uma pergunta sarcástica, seguida de uma resposta sarcástica, finalizando muitas vezes com um comentário agressivo ou ofensivo, seja em que circunstância ou com que personagem for.
A protagonista acaba por ser tão desprezível que, no final, após quase causar a morte de toda a população de Artemis, em vez de aceitar as eventuais consequências, ou tentar negociar diplomaticamente, apenas é capaz de pensar em si própria. O que faz sentido na sua persona de contrabandista e sobrevivente, mas que após 300 páginas, faz-nos questionar se houve algum crescimento na consciência da personagem.
Ainda assim, o maior pecado é Weir tecer uma estória cujo enquadramento no espaço lunar acaba por ser indiferente para o desenvolvimento da sua premissa. Se mesmo a eventual ideia de, criada uma colónia na Lua, se manter o mesmo tipo de divisão social que no planeta que orbita ser potencialmente interessante, o autor não está realmente interessado em desenvolver essas repercussões, fora as desaventuras de espionagem empresarial.
Enquanto a estória de uma contrabandista que se envolve num negócio ilegal com um milionário para a sabotagem de uma empresa, cujo cruzamento com um grupo mafioso a levará a ser perseguida por um assassino, nenhum elemento da narrativa é realmente enaltecido por se localizar na Lua, fora os pormenores específicos que o autor se necessita descrever por ter depositado aí o seu cenário. Mesmo o elemento que acabam por descobrir ser o real interesse das pessoas em jogo, poderia compor-se de uma qualquer tecnologia ou componente existente apenas num sítio do mundo.
Uma história tão genérica que o comentário na badana da capa sobre a sua potencial transformação numa série faz todo o sentido, se a imaginarmos como uma das milhentas esquecidas séries por que passamos o olhar numa pesquisa rápida numa qualquer plataforma de streaming.
Artemis (Andy Weir)
Topseller
1ª Edição - 2018
320 páginas
1ª Edição - 2018
320 páginas


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