terça-feira, 15 de setembro de 2026

Adstrito

Pelo canto do seu olhar, ele reparou na figura dela, que não se atreveu a entrar de imediato, preferindo analisar previamente a atenção dele. Não tinham qualquer assunto a tratar em conjunto. Não laboral, de qualquer das formas. Já haviam trocado olhares esgueirados diversas vezes, tentando dissimular uma atracção recíproca que apenas crescia com o afastamento. Ela era substancialmente mais nova que ele, embora a idade dela não apontasse qualquer ingenuidade. A quase década que os separava não deixava de vincar a inerente fascinação pelo peso de uma vida mais experienciada, para ela. Para ele, de uma vida ainda com tanto por que viver, por que esperar.
– Isto não está correcto, a tantos níveis…
– Sei pelo menos um em que está, dizia ela enquanto os seus braços circundavam o pescoço dele, aproximando-o do seu corpo.
O arrependimento que ele sentiu pelo instintivo beijo que se seguiu foi imediato, mas não o suficiente para travar os que se seguiram. Ela também conhecia o potencial erro da situação, mas como podia evitar o fascínio que sentia? As mãos dele subiram-lhe a blusa, revelando-lhe o dorso dela, um movimento suave pelas costas agora despidas sentiam a pele nervosa, os poros eriçados pelo desiquilíbrio que o seu toque proporcionava, uma oscilação reverberante pelo corpo. Encostaram os peitos, o tamborilhar agora partilhado, as palpitações menos e menos espaçadas.
– Não podemos, disse com toda a incerteza nas suas mãos trémulas.
Mantiveram-se unidos, até se afastarem uns minutos depois, na expectativa de se olharem novamente com o mesmo anseio que os colocara naquela situação.

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