segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Poderá existir fascínio sem paixão?

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Encarnado

     Uma noite quente sem luz, um cigarro iluminando momentaneamente a sua face, um decote óbvio, a curta medida do vestido, o misticismo do seu sensual vestido vermelho repousando calmamente numa cadeira, um copo de vinho meio cheio na frente.
     Desta forma ele a via e contemplava, por entre uma vontade de a abordar e o desejo de a acompanhar. Mas ele mantinha-se distante, julgando saber aquilo que ela quereria, julgando remota qualquer hipótese de se juntar a ela, beberricando o seu próprio copo de vinho tinto e vendo outros aproximarem-se dela e gozarem os seus poucos segundos de sucesso, por detrás de conversas fartas mais que divertidas. 
     Ele não partilhava de igual entusiasmo, mesmo estando a apenas alguns centímetros dela e da sua constante companhia. Talvez por sentir algum enfadonho em tão óbvias conversas. Talvez pelo calor que fortemente se fazia sentir no topo da sua cara em pequenas gotas. Talvez por ter alguma inveja aliado a uma pitada de ciúme. Afastava-se desses pensamentos, tentando fazer parte da informal ocasião, sem saber bem o que dizer, mais para estar junto da rapariga que abertamente sorria. 
     Ela convidou-o a sentar-se mais perto dela. Tenha sido a noite à luz dos candeeiros de rua que espreitava por entre a janela atrás deles, o som do saxofone, do violoncelo, do piano do jazz que tocava em fundo ou apenas a ajuda da bebida que se alongava jantar dentro, ele sentiu uma certa química, se tal nome se podia dar àquele momento em que ele concordou em se juntar a ela e em que ambos se olharam mutuamente...

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Sempre

Ela encontrava-se na minha frente
Conversávamos como amigos que somos
E num repente inesperado, ela espreguiça-se
Revelando um pouco do seu corpo tão resguardado anteriormente
Mas agora visível por uns segundos
Um ventre tão simples e sensual
Uma sensualidade que desconhecia nela
E assim admirava algo escondido por trás de olhares esguios
Tentando não mostrar a minha sensação de surpresa
Continuávamos a conversar
E por momentos por detrás da nossa amizade esqueci a minha nova descoberta
E novamente ela se espreguiça
Relembrando-me a minha maravilha perante ela
Maravilha que se sobrepunha a qualquer desejo que pudesse ter
Por ser um detalhe no meio de outros que me maravilhavam de igual maneira
Admirei o seu corpo uma última vez
Olhei-a largamente nos olhos e continuei a nossa conversa

domingo, 4 de setembro de 2011

Como ninguém

Uma mera empregada de mesa. Era o que ela era.
Vi-a passar pela nossa mesa, com um olhar acostumado, sem esperar nada, num jeito tão comum quanto as pessoas entorpecidas sobre as mesas que ela servia. De um lado ao outro do restaurante ela passava, atendendo chamamentos silenciosos de pessoas esfomeadas por atenção. E ela sem esperar nada.
Eu notei a sua presença. A sua pele tensionada sob uma camisola justa de tecido branco, o seu corpo torneado evidenciado por um andar despreocupado. Era difícil não a notar. Não julgava no entanto as pessoas que esperavam apenas a refeição, sem ligar à presença que a acompanhava. Ou talvez julgasse.
Admirava-a distanciadamente. E assim me mantive, ao ela chegar à nossa mesa, desviando a atenção para o livro de receitas prontas na minha frente, como qualquer um dos outros clientes que não a reconheciam. Demorei alguns segundos mais que o esperado para fazer o pedido, já da sobremesa, por pensar que uma escolha bem feita daria azo a mais que um sinal afirmativo da parte dela. Fiz o pedido. E não foi ao ela dizer "Boa escolha" que me deparei com a mesma secreta admiração da parte dela, mas ao ela repetir as mesmas palavras num tom quase inaudível.
*
Esperei até o restaurante fechar. Era noite cerrada, não diferente de qualquer outra, tirando uma óbvia sensação de agradabilidade momentânea pela espera demasiado prolongada.
Nunca a cheguei a ver, nem fiquei a saber se o erro tinha sido meu de julgar que algo podia advir de um situação tão comum.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

De um mundo não tão igual

Um livro não deve ser igual ao seu filme homónimo. É este facto que I Am Number Four nos vem relembrar, muito felizmente.

John Smith é do planeta Lorien, enviado para a Terra juntamente com oito outros, aquando da destruição do seu planeta pelos Mogadorianos. Condenado a levar uma vida de fuga e sem uma identidade própria, é obrigado mais uma vez a fugir quando o Número Três do grupo dos nove é morto, sabendo que o próximo será ele. Agora, estabelecido numa nova terra, ver-se-á preso a uma identidade que pretende manter, ao mesmo tempo que recebe os seus poderes e fica mais próximo da luta pelo seu destino, que poderá pôr não só a si próprio e aos restantes do grupo em perigo mas também às suas novas amizades, que tanto pretende manter.

Anteriormente aqui criticado, o principal problema do livro que originou este filme era o facto de deixar certos clichés sobreporem-se às possibilidades da sua premissa e como se tornava desequilibrado. Assim, parece que são entendidos esses erros e são contornados.
Primeiro, o filme agarra apenas em momentos chave daquilo que se passa enquanto no colégio, já que esse é a razão para o desequilíbrio do livro. Mas nem esses momentos são mantidos como no livro e são tornados inteligentemente mais sérios, até com protagonistas mais velhos que dão uma maior ideia de maturidade ao filme.
É esse mesmo o principal e melhor aspecto do filme, a sua seriedade, e aí se nota de que forma o livro foi trabalhado, retirando aspectos que não faziam de todo falta ou pareciam fora de tom e reinterpretando aspectos de certas personagens e mesmo da narrativa que falhavam e empobreciam a história, modificando mesmo algumas cenas, como a do incêndio, no livro, que se torna aqui quase numa cena de perseguição policial, mudando o tom para algo mais perto de um thriller, como era esperado.

Claro que o filme não atinge um patamar de grande qualidade, ainda por cair num estilo e numa narração já conhecida, mas tem claras pretensões de se assumir diferente do livro e algo mais sério e diferente. Mesmo a batalha final, que ganha proporções aborrecidas no livro com cenas tão conhecidas e óbvias, tem uma certa frescura no filme, por mostrar algo mais que o livro e num maior ritmo.

Assim, é óbvio que, estranhamente, o filme acaba por ser melhor que o livro, por fazer o trabalho que o autor parece não se ter interessado por limar.

Classificação: 5 / 10

Título original: I Am Number Four
De: D.J. Caruso
Escrito por: Alfred Gough, Miles Millar, Marti Noxon
Com: Alex Pettyfer, Timothy Olyphant, Dianna Agron

domingo, 21 de agosto de 2011

De um mundo tão igual

"No início éramos um grupo de nove. Três desapareceram, estão mortos. Agora somos seis. Eles estão a perseguir-nos e não vão parar até nos terem matado a todos. Eu sou o Número Quatro. Sei que sou o próximo."
Lendo este pequeno texto introdutório ao livro e começando a lê-lo esperava algo como a história de um ser de uma raça diferente da nossa, refugiado no nosso planeta, esperando pela sua morte, sem conhecer o seu passado e sem ter uma identidade certa. No entanto, o livro revela-se quase o oposto disto.

Ao iniciar, através de uma sequência extremamente cinemática, o livro parece prometer uma espécie de thriller suave envolvendo espécies extraterrestre num planeta que lhes é estranho. Mas rapidamente percebe-se algo estranho, ao percebermos que o autor do livro se intitula como uma das personagens da sua própria obra. De facto, ao nos apresentar uma personagem extremamente interessada por conspirações com extraterrestres, percebemos que direcção parece tomar a narrativa. Chega ao ridículo de sugerir, ainda que como ideia (esperemos), que grandes personalidades do nosso mundo possam ser produto de relações intra-espécies.

Algo que de igual forma falha é o equilíbrio da narrativa. Ainda que de início sigamos a jornada da personagem principal enquanto desenvolve os seus poderes e descobre mais sobre os seus objectivos, logo no capítulo seguinte pudemos, com igual importância, ser postos na pele de um jovem adolescente igual a qualquer outro que se apaixona pela ex-namorada de um rufia e que tem como amigo o jovem mais tímido e geek do colégio. Infelizmente, este paralelismo não oferece tanta dualidade na busca da sua identidade como seria de imaginar, ainda que existam bastantes vezes em que a personagem principal se questiona das suas decisões e desejos, ao que ajuda a narração ser feita pela própria personagem.

Existem, assim, momentos interessantes, como os que referi anteriormente, mas são poucos face à quantidade tremenda de situações comuns e, por vezes, mesmo forçadas, como mostra o combate final, em que se sucedem várias fórmulas já conhecidas e aborrecidas, em que o jovem ganha poderes muitos convenientes e combate com inimigos tão feios quando a sua malignidade e monstros que acrescentam em muito a falta de empolgadura da batalha.

Assim, uma fórmula que poderia ser original, usa fórmulas muito conhecidas e torna-se muito desequilibrada, fazendo-se valer apenas pelos escassos momentos de interrogação da personagem que seguimos atentamente.


Sou o Número Quatro (Pittacus Lore)
Editorial Presença
1ª edição - Março de 2011
415 páginas

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Tanto mais

Presumo existirem variadas seduções
que deveriam satisfazer algum deleite meu
visual ou de qualquer outra natureza
Mas já nenhuma me provoca qualquer inconsciente efeito
numa qualquer consciente observação
não por ter perdido o prazer de me deleitar
mas por nenhuma satisfazer aquilo que busco
Ah! penso eu, Como será possível
se existe tão variada escolha?
Precisamente aí reside o problema
não quero ter escolha
ou melhor, não desejo escolher por ter escolha
mas escolher por não haver escolha
Procuro e mais, desejo algum confronto
alguma rara hipótese de facilidade
pois se tal encontro não existir
e persistir
qual a graça de tão superficial sedução ou gosto
que apenas se mantém por breves momentos antes do enfadonho de uma relação baseada em tão pouca opção de escolha?
Saúdo com saudade esse fascínio a que resisto chamar sedução
por não ser padrão de beleza mas beleza sem qualquer padrão
Estarei a declarar-me? Talvez, se considerarmos tal efeito como causa
Mas não o considero assim
antes como uma descoberta que reclamo
Ah! relembro eu, As descobertas não possuem dono
são donas de si próprias
Nunca a poderei ter
Felizmente, não encontro angústia alguma neste acaso
pois não deixo de ser quem a olha fascinado
e a espera rever

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Aventura para reflexão

Jurassic Park é um livro que inclui vários momentos que poderiam estar no âmbito de uma disciplina de ciências ou de filosofia, mas mais do que isso é, felizmente, uma aventura que se deve ter em conta, mesmo que estas disciplinas não sejam do maior agrado.

Nos inícios da obra, Crichton apresenta-nos várias personagens que farão parte de toda a história, ainda que algumas delas se percam pelo caminho. E, apesar dessas personagens não serem de todo numerosas, limitando-nos a pouco mais de um punhado de personagens para seguir, estas parecem não ser totalmente pensadas, sendo que por vezes as personagens têm conhecimentos que geralmente não teriam no seu contexto, apenas para que um diálogo tome lugar.
Não digo com isto que Crichton fá-lo erradamente, e este até pode ser um pensamento próprio e não relevante, mas mesmo que tal aconteça, o autor fá-lo em prol da própria história e, como disse, de diálogos que, pudendo parecer forçadamente introduzidos, servem uma reflexão sobre o estado da ciência, o crescimento aparentemente infinito desta e como afecta o pensamento da sociedade, através da personagem que se mantém sempre fiel a si mesma (provavelmente, com semelhanças na personalidade com o autor), Ian Malcolm.

Michael Crichton inteligentemente divide o livro em vários tomos ou, como o próprio lhes chama, "iterações", que permite ao leitor uma ajuda na compreensão da evolução da história. Existem certas referências em cada primeira página de cada iteracão a um sistema que se torna cada vez mais complexo, junto com um gráfico que ilustra, de uma forma bem perceptível, a ideia subjacente à frase adjacente, revelando o perigo expeonencialmente crescente que se faz sentir cada vez mais ao longo da narrativa.
E esse perigo que o autor vai dando a conhecer com numerosos encontros e posteriores confrontos com os ex-extintos animais consegue sempre manter-se diferente de um para outro, havendo sempre um clima de surpresa na sua descrição, sem nunca entendermos quem será o sobrevivente e a vítima fatal quando findada a página, mantendo o suspense sempre que possível e aumentando a parada naquilo que seriam cenas de um terror visual intenso até ao final, sem deixar um fim "feliz" com que nos contentarmos após tanta carnificina. Não que o final seja desagradável, só não é o mais comum.

Assim, para quem terá visto o filme antes, não espere o mesmo tipo de experiência, mas algo mais profundo em conhecimentos e reflexão, com menos bases numa "aventura", no sentido mais lato da palavra.


Parque Jurássico (Michael Crichton)
Difusão Cultural
1ª edição - 1990
432 páginas

domingo, 7 de agosto de 2011

O que falta no filme da minha vida? Um interesse romântico, talvez. A emoção de um twist no seu desenvolvimento. Um flashback a um momento marcante...
O que falta no filme da minha vida?

domingo, 24 de julho de 2011

Mais


Olhos azuis
Cabelo quase loiro
Uma pele que raramente tocada se revela suave
Padrões óbvios de apreciação
Mas aqui numa naturalidade que poucas mulheres expressam
Pela maioria se esconder atrás de eventuais belezas
Uma naturalidade quase semelhante a fantasia
Sem pintura, pente ou qualquer creme hidratante
Mas ela existe
E persiste
Numa imaginação baseada nas pequenas vezes que a encontro
Em que a olho fascinado
Por ninguém a olhar assim
E por ela não o mostrando querer ser olhada assim
Então a olho
Sem antever nada
Nesse fascínio que persiste mais do que imaginário
Que agrada mais que ficção
Uma pele que raramente tocada se revela suave
Cabelo quase loiro
Olhos azuis

terça-feira, 12 de julho de 2011

Marés distintas

Sempre desconfiei a partir do momento em que ouvi que fariam um quarto filme do Pirates of the Caribbean intitulado On Stranger Tides. E essas desconfianças provaram-se fundamentadas.

Foi, de facto, com expectativas baixas que me encontrava aquando da minha visualização deste filme, já que sabia que não poderia resultar a adaptação do livro com o mesmo nome (cuja crítica por mim escrita poderá ser vista aqui) ao universo criado nos três filmes anteriores, já que cada universo se apresenta independente e muito diferente.
O universo da obra de Tim Powers, apresentando uma tamanha riqueza dramática, é quase contrário ao universo criado por Gore Verbinski, num espírito mais descontraído, até na criação de uma personagem como a de Jack Sparrow, apesar de o livro inspirar The Curse of the Black Pearl. Faço esta última afirmação sem certezas, mas com muita convicção, já que olhando para o filme e tendo lido o livro é impossível não fazer comparações entre ambos.
O romance entre Jack Shandy e Beth, equiparado ao de Will Turner e Elizabeth. Os mortos-vivos de Powers e a maldição do ouro azteca de Verbinski. O real Barba Negra e o imaginário Barbossa. A remota e desconhecida Fonte da Juventude e a inacessível e lendária ilha do tesouro azteca. Todos estes elementos trabalhados com nomes diferentes e contextos diferentes mas com a mesma paixão que parecem partilhar.

E é esta paixão a principal questão que se põe neste quarto filme desta "saga". Não existe paixão, apenas vontade de ganhar mais dinheiro com o filme, como mostra a insensatez acrescentada pelo uso do 3D desnecessário à vivência do filme. Mas não é apenas isto que demonstra falta de paixão. O filme, com uma maior vontade de regresso às origens, assemelha-se mais a National Treasure (também produzido por Jerry Bruckheimer) do que ao primeiro filme dos Piratas, construindo-se a história através de uma série de eventos que fazem as personagens chegar cada vez mais perto do seu objectivo ao invés dessa mesma história ser construída pelas próprias personagens.

Foi isto que Verbinski fez em todos os três filmes que realizou, com pequenas e variadíssimas subtilezas e nos seus numerosos enredos paralelos, tal e qual Powers faz na sua extensa narrativa e, nesse sentido, Gore Verbinski respeitou mais o legado que Tim Powers deixou no seu livro do que alguma vez este quarto filme poderia conseguir.
Porque com o final do terceiro filme, Verbinski disse que faria um quarto se houvesse uma história que o justificasse, sabendo ele que essa história só seria conseguida se pensada de origem e não copiada da ideia de outrém, já que isso originaria um resultado como o que nos é apresentado no filme de On Stranger Tides, que apenas pega em ideias gerais do livro, como as sereias, os mortos-vivos a até mesmo a personagem do Barba Negra (que, desrespeitosamente, ganha tanto protagonismo quanto o do menor dos piratas que embarca no seu navio) e lhes tira a razão de ser e a importância na narrativa maior.
E é compreensível, já que esses elementos, como disse anteriormente, já tinham sido abordados sobre outros nomes. Mesmo elementos novos são desperdiçados, sendo a ideia da presença das sereias rebaixada ao nível do Kraken no segundo filme, como apenas mais um monstro, ou, redundantemente, ao nível da personagem de Elisabeth Swan, transformando uma sereia numa criatura capaz de amar um religioso (que apenas serve uma história secundária, como no livro, mas que se sobrepõe, desinteressantemente, a tudo o resto).

E mesmo as personagens criadas de raíz para os filmes são desaproveitadas. Apesar do possível interesse no facto de Barbossa se transformar num corsário com a perda de uma perna, o facto da razão de ser dessa escolha ser tão simples como a de vingança faz com que a ideia perca qualquer estímulo que pudesse dar à história e o próprio Jack Sparrow (apesar da contínuo interesse que continua a mostrar, neste filme até numa dupla com a personagem de Penélope Cruz) cai num forçado uso de piadas, ainda que bem escritas, sem contexto.

Apesar da ideia de adaptar o livro de Tim Powers, com toda a sua riqueza de personagens, enredos e dramatismo, ser estranha para um filme com a presença de Jack Sparrow, todo o potencial que poderia ter nessa adaptação perde-se numa vontade maior de continuar o sucesso monetário mais do que o sucesso cinemático e narrativo dos filmes anteriores e do próprio livro.

terça-feira, 3 de maio de 2011

«'Tavas sexy!»
Fiquei calado. Deveria ter respondido
«Pena em todo o meu esplendor não conseguir sequer igualar a tua sensualidade num teu dia menos esmerado»
Resposta óbvia, mas nunca esperada

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Raiva silenciada

Existe aquela estranheza...
Começa o pôr do sol e estranhamos o dia que finda nesse instante, a inutilidade desse momento, já que durante todo o dia nada se passou para que possas saborear aquela sensação momentânea...
Sentes essa estranheza, à medida que revisitas o teu quotidiano, em busca de algo que te faça considerar o quanto valeu a pena passar por ele, quando entendes que nunca houve nada que te fizesse sentir de tal agradável maneira.
Conheces essa estranheza. Não é a primeira vez. Não encontras razão para continuar os dias, por chegares àquele momento que te marca o final do dia e não encontrares razão para o revisitares no dia seguinte. Mas continuas. E os dias parecem pesados, longos, inúteis, por nos momentos que antecedem o dia seguinte não teres qualquer história para contar...
Desejas algo que mude a tua vida, sem a procurares, sem saberes o que seja. Algo que te permita chegares a mais um final de dia e poderes dizer "hoje valeu a pena". Algo que te permita sentir feliz quando chegado o pôr do sol, mais uma vez. Algo que te permita dizer "amanhã valerá a pena"...
Um dia, poderá chegar a concretização de tal desejo. Mas antes de tal acontecimento, continuas os dias, sem saber o valor daquele momento que chega todos os dias no seu final, sob a forma de uma possível pintura numa parede, de uma estria de luz por entre uma estreita janela, de um conforto final num desgostoso dia. Continuas sem conhecer o sentimento de sucesso, de realização, de satisfação, ainda que momentânea, que afecta quase todos ao chegarem a casa e ao vislumbrarem tudo o que possuem na concretização de uma felicidade aparentemente contínua.
E continuas insatisfeito, por essas pessoas poderem partilhar isso, não por egoísmo, mas por amizade, por um desejo de retorno dessa mesma felicidade de quem recebeu, e por tu apenas poderes ouvir, acenar e deixar-te levar na abstracção de um dia que mais parece irreal...

Capricho

Todos eles
olhavam-na
invejavam-na
desejavam algo dela
Apenas um a olhava de relance
receoso
desejando apenas um olhar retornado
Ele assim actuava
sem saber demonstrar o seu apreço
receoso
por não confiar na compreensão dos seus actos
Durante tempos manteve-se distante
receoso
desconhecendo o que fazer
dizer
tentando compreender essa impossibilidade
qual a sua intenção
receoso
por não confiar na sua suficiência enquanto
humano
homem
amigo
Ele assim actuava
descobrindo cada vez mais razões
que fizessem olhá-lha
questionando-se
sobre a sua suficiência
Ele assim permanecia
sóbrio
sério
desgostoso
pelas suas intenções não serem claras
pela sua vontade não ser plena

No final
o que ele questionava era
Será possível
que ela exista
na minha realidade?

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Sedução

A cintura é
perfeitamente alinhada
as suas curvas
simples
um abdómen não muito magro
nem demasiado expandido
Todo o corpo perfeitamente equilibrado
Umas costas cuidadosamente esboçadas
a curva mais bonita
de um corpo que todo ele surpreende
Um desequilíbrio momentâneo dá-se na mente
face a sensação experienciada pela visão
Esta sensualidade
capaz de fazer render uma multidão
à sua insignificância
termina no seu auge
no ventre
O umbigo é simplesmente perfeito
É um simples cliché
a cereja no topo do bolo
Perfeito