quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Sempre moderno

Atrevo-me a concordar com a ideia disposta no prefácio, de que o protagonista, de facto, não toma as suas acções por amor, mas por orgulho próprio. Talvez mesmo por uma vontade auto-comiserativa de se mostrar um honrado romântico, onde as suas acções de resto foram tomadas por teimosa e desafiante disputa.
Revela bem isso, creio, quando o protagonista, perante a sua esperada sentença, afirma «A forca é um triunfo, quando se encontra ao cabo do caminho da honra». Como se as suas acções não tivessem sido tomadas em favor do amor que supostamente as justificam, antes como um sinal de afirmação pessoal, mesmo que fatal. O protagonista aceita o seu destinado enclausuramento por motivos de orgulho, mesmo perante uma alternativa que o deixasse mais próximo da amante, no entanto arrependendo-se face, como o próprio autor refere, a fealdade da realidade que enfrenta.

Não devêramos nunca simpatizar com a personagem de Simão, que partilha a sua trágica condição com quem se cruze. Simão, o dito romântico, que nem parece inteiramente interessado em Teresa. Vê-se encurralado pelo trilho que traçou, por não poder dele retirar-se sem perda de sua honrosa figura. Será pela figura de Mariana que reconhece alguém que lhe tem uma verdadeira e desinteressada dedicação, e a quem apenas vê uma obrigação de eventual retribuição, mas a quem também direcciona os seus pensamentos, para além de Teresa.
Mariana, cuja personagem se revela a verdadeiramente trágica de toda a narrativa. A que se vê caída num inevitável triângulo amoroso, enamorada de Simão à medida que o auxilia na sua demanda reconhecidamente vã, e tem deveras o seu bem em vista. A que perde tudo por esse "nobre" homem que lhe não sabe sequer como agradecer, senão pedindo mais de si. Qual oportunista aproveitando-se de uma oportunidade que não pode desperdiçar.

É também em João da Cruz, personagem cujas observações de "sabedoria" popular simplista sobre as mulheres, que acabamos por entender o ridículo da situação de seu amo. Situação essa que demonstra a privilegiada posição de Simão, como a certo ponto o seu servente lhe dá directamente a entender. Crítica social simples mas clara, que acaba por expor o ridículo do caso amoroso, tornado tragédia apenas pela possibilidade dos amantes se poderem colocar em tal situação drástica pela sua distinta posição.
Ademais, o tom jovial e "gozão", verdadeiramente cómico, com que o autor descreve outras situações e personagens que rodeiam toma a trama, fazem parecer quase absurda a situação do par, e todo o melodrama shakespeariano evidente da obra, o que parece revelar um comentário subjacente de Castelo-Branco ao próprio género que utiliza como estrutura.

Não creio que o autor, por ver a sua obra repetidamente bem sucedida, tenha tido razão em a depreciar à altura, como descrito no início. Contrariamente, é um exercício desconstrutivo que pretende ilustrar todo o desenvolvimento trágico-romântico como, no final, inútil, e que se mantém aos dias de hoje uma moderníssima reinvenção do romance.

Amor de Perdição (Camilo Castelo Branco)
Alêtheia Editores - Expresso
1ª Edição - 2016
167 páginas

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