sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Sereia

A praia estava praticamente deserta.
Perante as imensas ravinas, quase nenhum ser povoava o imenso areal, senão umas quantas pessoas que, como eu, traçavam a mesma rotineira caminhada matinal. Então vi-a, sentada sobre uma pequena formação rochosa perdida naquela costeira paisagem. Mais nenhum dos meus espontâneos acompanhantes a olhava. Apenas eu me parecia interessar por aquela isolada figura. O seu olhar intermitente entre os seus pés e o horizonte defronte dela, como se questionasse a sua presença naquele sítio. Enquanto percorria os meus passos predestinados, pensava se deveria interromper o destino dessa manhã, se a deveria abordar, como o deveria fazer, tornasse-se essa a minha inesperada vontade. Continuei, admirando-a ainda, desejando entender o que a levara até àquele poiso improvisado, e a permanecer ali, prostrada de forma tão humilde, tranquilizada. O desejo de tomar a sua atenção crescia.
Cruzei aquela ninfa sem pausar sequer, sem um olhar mais direccionado. 
Umas quantas passadas a seguir, decidi observar por sobre o meu ombro, procurando um último vislumbre sobre a melancólica presença. Ela porém não se encontrava mais sentada. Levantara-se e caminhava na direcção oposta às ravinas atrás dela, a água salgada nivelada pela barriga da perna. Vi-a naquele momento quase em contra-luz, a solarenga manhã pintando a sua esbelta figura, enquanto ajeitava o longo e brilhante cabelo, escorrido pelas costas. O refinado semblante, o peito pequeno mas sobressaído, o ventre magro e ondulado. Então, olhou para a posição onde me encontrava. O seu olhar penetrava através da sombra em que se encontrava, como se uma segunda estrela fizesse sobressair o seu brilho. O desejo de a compreender vincava-se. Não sabendo se o seu olhar se me direccionava, retornei à minha intenção, e continuei a passos largos, tentando escapar à situação.
*
Quando momentos depois retornava ao ponto de partida daquela manhã, cruzando o sítio onde a vira, já não a encontrava. Por entre a ainda finita população ali presente, não a reconhecia em lado algum, e a única saída possível implicava que a tivesse cruzado novamente.
Não sei se continuara a sua caminhada pelo mar adentro, se sequer era real. Sei apenas que guardo aquele olhar até hoje. Desejo tornado arrependimento tornado desejo.

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